domingo, 14 de fevereiro de 2010

um conto de Carnaval (1ª parte)

Arredores de Londres. Névoa, frio, noite. Baile de máscaras. Ele de William Shakespeare com um daqueles fatos que sê vê em filmes e ela de Viola de Lesseps com um vestido de seda dourada, comprido, espartilhado, decotado e com uma enorme saia em balão. Não se conheciam, mas aquela complementaridade notada pelos dois foi evidente na primeira troca de olhares. Despiram-se de imediato com os olhos. As máscaras não revelavam identidades, apenas fantasias.
-"The dinner is served." - ecoou pelo salão da mansão onde se encontravam. Os lugares estavam marcados. Coincidência ou não estavam um em frente ao outro separados pelos pratos, talheres de prata, copos de cristal, um castiçal prateado e uma travessa recheada de queijos das mais variadas nacionalidades.
Os vários convidados falavam das futilidades que se comentam nas revistas, na qualidade do que estava na mesa... eles, ao invés da maioria, preferiam o silêncio. Entre cada garfada esboçavam um sorriso. Entre cada sorriso, um gole do mais requintado vinho.
Finda a sobremesa era hora do baile.
Ela desloca-se até umas das mesas e limita-se a observar. Não só quem está no palco, mas também tudo o que se encontra à sua volta. Repara na toalha de cetim, nos cortinados de veludo vermelho-sangue, nas cadeiras de madeira maciça, na colecção de punhais exposta numa das paredes creme. Pergunta-se como serão os quartos...
Ele senta-se mais atrás e o pensamento que lhe invade a mente é apenas um: conhecer a paixão do personagem que encarna nessa noite.
-"And now, the last dance of the night." - É o último anúncio.
Ele abre os olhos, como que acordado de um sonho. "Well William, I guess it's now or never!" pensa para si. Num ápice levanta-se vai até àquela mulher de cabelos loiros que o fascinou desde o primeiro momento e estende-lhe a mão.
-"Would you give me the honour Madame?" - disse.
-"Miss, if you please..." - corrigiu ela. E deu-lhe a mão.
-"A thousand apologies, Miss..." - proferiu, embaraçado.
-"Viola, Viola de Lesseps." - completou ela enquanto caminhavam para o palco. Não, ela não ia entregar o seu nome. Queria continuar assim, Viola.
E deu-se início uma valsa, a última valsa da noite. Para aquele casal era mais que isso. Era o desenrolar de um mistério onde, até agora, apenas sabiam os nomes dos personagens que vestiam. E nada mais que isso.
Olhavam-se por segundos que pareciam eternos e as mãos dele na pele dela pareciam algodão...
A cintura dela aos olhos dele eram mas do que poderia pedir.
Ele, moreno de olhos castanhos, um castanho profundo como ela nunca tinha visto. Talvez fosse da máscara, mas na altura não se importou. Queria gozar o momento, apreciar o homem que tinha nos braços. Ela de corpo esbelto, cabelos compridos, longos, ondulados. Olhos de cor azul misturado com um leve tom de verde. Um verdadeiro enigma de mulher de lábios vermelhos e finos, mas não em demasia. "Perfect!" pensou ele. Só viam a hora de ver a descoberto que toda aquela vestimenta cobria.
-"Master Shakespeare, I heard you are a poet" - quebrou ela o silêncio. Ele nada disse.
-"But a poet of no words?" - diz, indignada.
-"I was a poet till now, but I have seen beauty that puts my poems at one with the talking ravens at the Tower." - diz ele, tal como no filme "Shakespeare In Love" tão bem conhecido pelos dois, ao que parece. Riem os dois. Sim, ambos conhecem o filme de cor. O que vinha a seguir ao baile também eles conheciam. E pretendiam seguir o guião. Não à risca, mas quase. A música ainda tocava e aproveitavam os dois para se desviarem, aos poucos. Chegaram às escadas e foram subindo sempre de braço dado. A mansão não era de nenhum dos dois, mas de um amigo que tinham em comum. Ainda assim sabiam perfeitamente onde era o quarto de hóspedes.


5 comentários:

Bernardo Lupi disse...

Muito bom e ansiando por uma continuação...

Pekenina disse...

Bernardo: A continuação virá. Prometo :)

Beijinho

carpe vitam! disse...

olha, fiquei com vontade de rever o filme... e de Carnavalar com força!

Pekenina disse...

Carpe: Tenho o filme. Vejo-o vezes sem conta. :) Carnavalar em força e terminar num baile assim?

carpe vitam! disse...

entretanto já o arranjei ;)
sim, seria bem interessante terminar num baile assim :D mas por enquanto, ainda só sei como vou começar...