Está o escritor a rabiscar o seu bloco de notas, a desenhar a sua história letra a letra, construindo as personagens, tecendo o enredo, quando de repente a sua mão deixa de lhe obedecer, e começa a escrever sozinha. O escritor, estupefacto, lê depois de escrever:
- Desculpa lá, mas quem é que tu pensas que és, Deus? Nem penses que eu vou fazer isso. Ao menos Deus ainda dá o livre arbítrio, agora tu… não passas de um ditadorzeco que não ouve o seu povo!
Ele olha, boquiaberto, para o que a sua mão acaba de escrever e pensa que não devia ter dormido tão pouco. Começa a riscar o que a sua mão escreveu, mas ela toma de novo o controlo:
- Olha, eu acho que estás a fazer tudo mal, tens de ouvir as personagens. Não sabes a trabalhadeira que é apoderar-me da tua mão para te poder dizer isto. Só porque não escutas. Tens uma data de personagens a gritar e não as consegues ouvir.
Ele agora está perplexo, a olhar para o que escreveu, sem se atrever a voltar a aproximar a mão do papel. Passado um bocado, tenta recompor-se, concentra-se e começa a ouvir uma multidão dentro da sua cabeça, todos a falar ao mesmo tempo.
- Calem-se! Assim não consigo pensar! – Grita ele.
- Ah! Ele ouve! – Responde um coro de vozes desorganizadas.
- Já que estamos todos aqui dentro, exigimos que os nossos direitos sejam respeitados, e um deles é sermos ouvidos!
- Queremos tomar o comando dos nossos destinos!
- E deste modo, ajudamos-te a deixar de ser um escritor da treta!
- Tens de cozinhar melhor as ideias e saborear as palavras, depois se te souber bem, podes partilhar, que é a melhor forma de multiplicar prazeres. Nem toda a gente vai gostar, porque é mesmo assim, nem toda a gente aprecia a mesma comida. Mas o que importa é que seja feita com amor. Apura os teus sentidos, dá-nos liberdade!
O escritor decide passar a ouvir as suas personagens e deixa de ter tantas insónias. Há quem diga que passou a escrever melhor. Há quem diga que é louco.