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sábado, 26 de dezembro de 2009

~43

Ai! Não posso crer! Começo a sentir contracções a meio da noite. Não podias ficar quietinho agora e deixar-me gozar um pouco mais deste estado de graça? Caramba!

Lá fomos para o hospital, a Catarina foi lá ter e eu insisti para que os dois assistissem ao parto. O parto correu bem, bem melhor do que eu esperava, é um menino! Foi muito bom ter os dois ao meu lado, deram-me imensa força. Penso que é realmente a minha oportunidade de me reconciliar de uma vez por todas com os homens.

Foi tudo muito rápido. O bebé aproveitou que estávamos os dois finalmente a dormir descansados para decidir nascer. Telefonei à Catarina e ela veio ter connosco ao hospital e assistiu ao parto. Ela é muito forte e eu sei que fará sempre parte das nossas vidas. Agora eu sei o quanto ela se empenhou para que esta história desse certo e estou-lhe imensamente grato.

Foi uma loucura, felizmente tudo correu bem, nasceu um menino, 2,950 Kg! Mal posso esperar para lhe ensinar tudo o que puder, educá-lo, vê-lo crescer!...Vou fazer tudo para isto dar certo.

Não faço ideia do que irá acontecer connosco, mas isso agora não me preocupa nada. O bebé está bem, eu estou bem, toda a gente à minha volta está feliz.

Havia esperança no ar, ainda há, posso cheirá-la. Ela estava com o bebé, num quadro perfeito de serenidade. Comecei a suspeitar que a ternura é a mais genuína demonstração de amor. Ela virou-se para mim e sorriu: “Promete-me que te vais esforçar por falar português sem sotaque.”
~

início

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

~42

Ela estava linda com aquela barriga e eu estava doido para a mimar com ela merecia, mas não sabia se ela ia deixar. Comecei a beijá-la, ela estava a responder muito bem, e eu fui avançando. Começou a tirar-me a camisa e só descansou quando me despiu completamente.

Levei-a para a cama. Depois foi a minha vez de a despir. Nunca tinha visto uma mulher assim tão grávida e nua à minha frente, foi impressionante. Momentos preciosos, poder desfrutar da presença dela, saber que dentro dela está um bebé que nós fizemos com imenso prazer… foi único.


“You put this in me / So now what, so now what?”

Fizemos amor.

“Wanting, needing, waiting / For you to justify my love”

Não sabia que era possível fazê-lo com uma barriga de quase oito meses, mas foi muito bom.

“Hoping, praying / For you to justify my love”

Senti-me completamente mimada, com um enorme poder.

"Yearning, burning / For you to justify my love”

Adormecer ao lado dele faz-me sentir finalmente protegida e segura.

“I'm open and ready / For you to justify my love”

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

~41

Demorei um dia para digerir aquela história toda e decidir o que fazer. Fui ter ao apartamento dela, tinha de ser cauteloso, tinha de a convencer…

Ela é tão linda! Estou mesmo perdidamente apaixonado, e com o bebé então…

O apartamento era minúsculo. Ela conduziu-me para um sofá-cama. Reparei num quadro com uma montagem de pormenores de um corpo masculino e percebi que eram as fotos que ela me tinha tirado nos Açores. Ela deve ter reparado, porque corou de repente. Afinal, talvez não seja só atracção…

Ele voltou, desta vez reparou no quadro com as fotos, eu realmente sou muito burra, devia ter-me desfeito daquilo. Depois começou a contar-me uma história.

“Trabalhei com uma nadadora num projecto de educação física nas escolas e acabei por me apaixonar por ela. Foi a única vez que misturei trabalho com amor e acabei por me casar. Estávamos sempre juntos, éramos muito unidos, e apesar de não planearmos ter filhos, ela engravidou. Ela estava no topo da carreira, e não ficou nada contente com a ideia de ter um filho. Apesar de eu querer ter o bebé, ela optou por abortar e eu tentei respeitar a decisão dela. Mas a partir daí a nossa relação nunca mais foi a mesma. Ela começou a afastar-se de mim e eu não conseguia esquecer o que se tinha passado.

Aquele aborto acabou com o nosso casamento. Não há dia nenhum que passe que eu não me arrependa de não a ter conseguido convencer a ter o bebé.

Ok, ele acabou com todos os meus planos num minuto.
“Lamento o que te aconteceu, eu percebo que queiras ficar com o bebé, mas pensa se isso será o melhor para ele. Ele pode ter uma família aqui, com tudo o que precisa, dois pais que se amam e que vão com certeza amá-lo também. Achas que podes dar-lhe mais do que isso?”

“Acho que podemos fazer isso e muito mais.”

“Para os homens é tudo tão fácil, acham piada a ter um filho porque não têm de carregar a criança 9 meses no bucho, não têm de a parir, não têm de amamentar…”

“Mas a partir daí podemos ajudar…”

“Porra, eu detesto a ligeireza de pensamento dos homens!”

“Mas se detestas tanto, por que és tão agressiva e te comportas tantas vezes como um? Ainda por cima, os homens são tão «básicos», não é?”

Nádia 1, João 2 - ele marca 2 pontos com uma só boca e eu devia aprender a controlar melhor o que digo. Até lhe viro as costas e deixo escapar um “desculpa” baixinho.

“Eu gostava que me desses um pouco mais de crédito, eu preocupo-me contigo e com o bebé, eu quero-vos aos dois, deixa-me…”

Ele é mesmo perito em abordagens por trás. Vem de mansinho, falar-me ao ouvido, pousa uma mão no meu ombro, abraça-me, envolve-me a barriga nos braços e eu não aguento mais e desato a chorar como nunca tinha feito antes. Não consigo parar de soluçar, até me passo!

Ela começou a chorar desalmadamente e eu virei-a para mim, ela enterrou a cabeça no meu peito e eu senti que finalmente ela começava a render-se. Aos poucos, foi-se acalmando.

“E se ele for uma má pessoa? E se não gostar de mim? E se eu não gostar dele? Eu não estou preparada para isto!”

“Ninguém está, faz-se o melhor que se pode. O que é preciso é amar, incondicionalmente.”

Não sei…

~40

A Catarina defende-o a dizer que ele levou com tudo de repente, coitado, e que faz sentido ele pedir algum tempo para reflectir, mas faz-me à mesma a massagem.
Ela pergunta-me o que é que eu quero, o que é que eu sinto por ela, o que é que eu sinto por ele. Eu meto-me em cada embrulhada!
Eu sou o mais honesta possível com ela, digo-lhe que a amo do fundo do coração, mas sinto-me irremediavelmente atraída por ele, não entendo por que estou apaixonada por alguém que eu não conheço, quando tenho uma pessoa ao pé de mim que me ama, que me quer, não entendo por que é que me sinto tão dividida, a escolha lógica seria ela, mas se ele quisesse ficar comigo… mas eu também não quero que ele fique comigo só por causa do bebé. Isso não ia dar certo. Aliás, eu nem sei se poderá dar certo de alguma maneira, que puta de vida a minha!
“Olha, eu acho que ele vai querer assumir o bebé, e se ele atravessou 4 países para te encontrar sem saber o que o esperava é porque gosta de ti. Eu percebo perfeitamente que sintas confusa, no teu lugar também ficava, mas se ele quisesse ficar com o bebé e comigo, eu não hesitava.”
“E se ele quiser ficar só com o bebé?”
“Tu deixas? Aposto que ias brigar pela custódia do puto só para poderes estar com ele. Mas acho sinceramente que as hipóteses de isso acontecer são remotas.”
Ele liga-me, pede-me para nos encontrarmos e eu digo-lhe para vir ter ao apartamento.
“Bem, desta vez vou mesmo ficar na casa do Peter. Palpita-me que vocês vão ter uma longa noite… vê se não te enervas, ainda tens de aguentar o bebé mais uns tempos!”

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

~39

Não acredito, ele vem de carro ter comigo! Não sei porque tou tão entusiasmada, ele deve tar a pensar que vai repetir os Açores, quando me vir até foge! A Catarina aposta comigo que ele não vai fazer nada disso. Diz que vai ficar na casa do Peter para podermos estar mais à vontade.
“Olha, depois pergunta-lhe se podemos fazer ménage à trois…” Ela não existe.

Estava super cansado da viagem, foram 1200 Km por quatro países diferentes a abrir, três deles com o volante do lado errado. Estava mesmo ansioso por a voltar a ver. Tinha reservado um quarto num hotel, mas o que eu queria mesmo era dormir com ela nessa noite.
Toquei à campainha, ela abriu a porta e eu apanhei o maior susto da minha vida. Estava grávida!

Se isto fosse um filme, era aqui que fazia um grande plano da minha barriga e da cara de espanto dele e depois fade out para intervalo.
Desta vez não houve cá abordagens pelas costas, ele leva comigo e com a minha barriga de frente, olha para mim aterrado e pergunta “Nádia, what happened?” Apetece-me ser sarcástica, e dizer-lhe que engoli uma melancia inteira. Mas respiro fundo e contenho-me. “Quando soube fiquei cheia de raiva, tinha-te desfeito se estivesses à minha frente. Depois com o tempo, percebi que o que tem de ser tem muita força.”
“How is it possible? I saw you take the pill!” – o gajo deve estar mesmo assustado, deixa de falar português quando a adrenalina dispara.
“A pílula não funcionou comigo, afinal, nenhum contraceptivo é 100% eficaz, muito menos uma pílula de emergência. O que eu tomei foi uma dose concentrada de hormonas que supostamente impedem a fecundação. A médica explicou-me que a fecundação acontece geralmente entre 6 a 72 horas após o acto, dependendo da fase do ciclo menstrual, por isso se a pílula for tomada depois, deixa de fazer o efeito desejado .”
Percebeste ou queres que te faça um desenho? – era o que me apetecia dizer, mas ele tá tão aterrado, de boca aberta. E continuo: “No meu caso, a fecundação deu-se antes de eu ter tomado a pílula. Para além disso, termos andado a «brincar» depois só facilitou o caminho ao espermatozóide, porque as contracções do útero ajudam a navegação. Mas o pior foi mesmo teres-me deixado dormir aquele tempo todo. Se eu tivesse tomado logo, não estava assim de certeza!”.

“Why didn't you tell me before?!”
Ela diz-me que só descobriu que estava grávida depois de vir da Amazónia e nessa altura já era tarde para abortar. Que não me queria contar nada, mas que precisava da minha autorização para dar o bebé para adopção, que como o sistema não funciona em Portugal, escolheu o que lhe pareceu ser um sistema melhor na Dinamarca.
Eu fiquei sem saber o que fazer. Tinha de telefonar urgentemente para o Tomás, talvez ele me conseguisse explicar o que se passou. Era surreal demais.
“Isto é muita coisa ao mesmo tempo para mim. Por favor, dá-me um tempo, deixa-me digerir isto tudo, eu volto assim que puder.”

A Catarina está a dever-me uma massagem aos pés. Ligo-lhe a dizer para cancelar o hotel.

“Vais mesmo ser pai? Se tens dúvidas pede um teste de paternidade, não te precipites!”
O Tomás então explicou-me novamente o que a Nádia já me tinha dito, eu não tinha razões para duvidar do que ela me estava a dizer, tudo fazia sentido.
Não podia acreditar que ia ser pai… um sentimento de alegria incontrolável invadiu-me, liguei imediatamente para a Alice, ela iria ter uma surpresa em grande: “Vou ser pai!” ela adorou a notícia, deu-me os parabéns e percebeu finalmente como tudo se encaixava.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

~38

Não tive coragem de lhe dizer ao telefone, acho que prefiro falar com ele pessoalmente. Ele não faz mesmo ideia do que se trata, pensa que é algum problema de saúde ou que cometi algum crime e tenho a polícia à perna, ele realmente não me conhece. Se isso acontecesse, ele seria a última pessoa a quem eu ligaria. Tento tranquilizá-lo e dizer que está tudo bem, tento dar-lhe a ideia de que só ele me pode ajudar.

Não estava a conseguir voo para a Dinamarca, os aviões estavam todos cheios por causa do Natal e o mau tempo não estava a ajudar. Mas o que é que seria que ela queria de mim? A minha vontade era ir de carro até lá. Liguei-lhe a explicar a situação, ela disse que podia bem esperar para depois do Natal, mas eu senti o desapontamento na voz dela e decidi fazer a viagem de carro. Faltavam três dias para o Natal, disse aos meus pais que tinha um assunto urgente para resolver, que se calhar não ia poder passar a Consoada com eles. No dia seguinte, estava à porta da morada que ela me tinha dado.

~37

A Alice disse-me que recebeu um mail da Nádia a dizer que ela estava na Dinamarca a trabalho. Tinha de tirar esta história a limpo.
Liguei-lhe, mas ela não tinha o telemóvel ligado. A Catarina não atendia.


A Catarina liga-me finalmente, mas só para dizer que o João tá a tentar falar com ela, provavelmente já tentou falar comigo, mas eu tenho sempre o telemóvel desligado. Só o que se paga de roaming, nem sei por que o trouxe. Decido ligar a porcaria do telemóvel e preparar-me para lhe contar de uma vez por todas.


Voltei a insistir, não ia desistir enquanto não conseguisse falar com ela. Finalmente consigo que ela me atenda:
“Nádia! Há quanto tempo! Estava difícil conseguir falar contigo. Como estás?”
“Tou bem, e tu?”
“Tudo bem, a Alice disse-me que estás na Dinamarca, está a correr tudo bem?”
“Sim.”
Ela parecia extremamente seca e evasiva, a querer despachar-me.
“O que se passa, estou a achar-te tão estranha…”
Fez-se silêncio do outro lado.
“Tenho uma cena para te contar, mas não pode ser por telefone. Podes vir cá ter?”
Fiquei apreensivo. Afinal sempre havia qualquer coisa…
“Claro, vou o mais rápido que eu puder, mas por favor adianta-me alguma coisa do que se trata! Passa-se alguma coisa com a tua saúde? Meteste-te em alguma embrulhada com a polícia?”
“Não, não é nada disso, eu tou bem, o assunto é demasiado delicado para te dar pormenores por telefone. Tenho mesmo de falar pessoalmente contigo.”
“Ok, eu vou ver quando posso ir e já te ligo.”


domingo, 20 de dezembro de 2009

~36

Isto é claro, deixa-me com mais algumas dúvidas. “Que raio de orientação sexual é a tua?” Não consigo entender. Acho que vou dar em doida. “O que é que isso interessa? Sou uma pessoa que se apaixona por outras pessoas, independentemente do sexo. Bem vistas as coisas, isso é só um pormenor.” Será? Agora que penso melhor sobre isto, há qualquer coisa que continua a não bater certo, sinto uma pedra no sapato. É o João e o bebé, tenho de resolver isto de uma vez por todas. “Liga-lhe.” “Não ligo.” “Tens de lhe ligar!” “Se ele souber até pode querer ficar com o bebé e eu acho que isso não é o melhor para ele. O melhor é o João não saber. “Tu tens medo que ele aceite o bebé! Deves estar a pensar que eu não te conheço! Para além de ele ter o direito de saber que tem um filho, tu não lhe podes fazer isso, ele sempre foi correcto contigo! Como é que tu vais conseguir dá-lo para adopção sem o consentimento do pai, estás doida?” “Sim, deve ser, como nos contos de fadas. Tu dizes que ele gosta de mim, aposto que se ele souber desaparece logo do mapa, nunca mais me vai chatear! Deves tar a pensar que ele vai adorar a ideia de ser pai e já agora, pede-me em casamento! Tu és tão romântica, Catarina! O mais certo é não acreditar que o bebé é dele! Nem penses, eu não vou passar por isso!” A Catarina está-se mesmo a passar, nunca a vi assim. Mas decido pôr mais lenha na fogueira: “É verdade que eu não quero que ele fique com o bebé, acho que ele fica melhor com um casal a sério, mesmo que ele e a Alice o quisessem adoptar, não sei se eles são o casal ideal, tendo em conta o comportamento sexual …” “Tu és uma preconceituosa! Uma parvalhona, egoísta, egocêntrica, mais teimosa e retorcida que eu sei lá! Eu nem sei como é que posso gostar tanto de ti! Pensava que a gravidez te podia trazer algum discernimento, mas tu estás cada vez mais parva! ” Preconceituosa, eu? “A julgar as pessoas pelo comportamento sexual! Pelo que tu me dizes, eles nunca foram irresponsáveis, nunca te trataram mal, por que é que tu és assim? Porque é que não tomas de uma vez por todas a atitude certa? Por que é que tens de ir sempre pelo caminho mais difícil? Tou farta de aparar os teus golpes, de te ver estenderes-te ao comprido! Ou lhe contas tudo até à próxima semana ou eu conto-lhe! Escolhe! ” “Chiça! Agora tás armada em minha mãe?!” “Se estou a fazer isto é para teu bem e porque gosto de ti!” Dá meia volta, pega na mala e no casaco e bate com a porta. Decido ir tomar um bom banho de imersão, aquilo já lhe passa e daqui a nada já está aí, de certeza. Ponho a Susana Félix a cantar para mim 3 vezes seguidas:
“Flutuo
Consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
O meu destino está fora de mim
Eu aceito
Sou eu despida de medos e culpas
Confesso
Hoje eu vou fingir
Que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã
Flutuo
Consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá
E eu não contesto
Amanhã pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim Pretérito Mais Que Perfeito
Hoje eu vou fingir
Que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã
Amanhã
Hoje eu vou fugir
Para não me dar a vontade de ser tua
Só para não me ouvir dizer
Que as coisas vão mudar
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Flutuo”
Adoro o vídeo, naquela parte em que o BI se afunda na água, como se perdesse a identidade, ela sai de dentro de água e entra no carro, desperta para outra realidade, purificada, com mais clareza. Eu também saio de dentro de água purificada, mas num contexto bem diferente, e acordo para uma realidade em que já não sei qual é a minha identidade. A minha vida mudou tanto nos últimos meses… A Catarina ainda não chegou e começo a ficar preocupada. Vou deitar-me. Dou voltas e mais voltas, não consigo dormir, a Catarina ainda não chegou, sinto a falta dela na cama. Passo a noite em claro, a Catarina passou-se de vez comigo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

~ 35

Tamos a ouvir Enya, Songs of the Season. Está a chover a potes lá fora e nós tamos as duas no sofá cama, a comer gelado.
“Como é que tu tens pachorra pra me aturar, Catarina?” “Não sei, acho que nós não escolhemos quem amamos, não é?”
Olho para ela e acontece uma cena bué estranha, eu dou-me conta que ela é mesmo linda, toda lambuzada de gelado. É perfeita, é a pessoa mais sensível e inteligente que eu conheço. Não sei porque é que só agora eu me dou conta disto, talvez porque ela sempre deixou bem claro que era hetero e eu sempre prezei a amizade dela, para mim ela era assexuada. Agora, olho para ela sinto uma vontade irresistível de a beijar. Ela percebe que estou a olhá-la de maneira diferente, mas em vez de se retrair, beija-me. Faz-me sentir desejada, o que é estranho para mim com esta barriga enorme. Ela é super carinhosa comigo e eu tento corresponder como posso. O nosso amor platónico passa a ser também carnal e eu não podia sentir-me melhor!...

domingo, 22 de novembro de 2009

~ 34

Recebo um mail da Alice com um voucher da viagem para os Alpes. ELA QUE O ENFIE NO CÚ DELE! Façam bom proveito! Respondo que afinal vim para a Dinamarca em trabalho, o que não é mentira nenhuma, embora seja um trabalho diferente do que estou acostumada.
A Catarina aproveita para fazer contactos e eu vou com ela a tudo o que é galeria de arte. Mas a barriga já me começa a pesar e não tenho desenvolvido a história da adopção, que foi para isso que vim. Já só faltam dois meses para o bebé nascer e estou a ficar preocupada.
Isto de estar grávida só tem uma vantagem: passar à frente das pessoas na fila do supermercado e nos transportes públicos. As pessoas sorriem estupidamente para mim, dão-me lugar e desejam-me felicidades.
Eu e a Catarina parecemos um casal de lésbicas. Até dormimos juntas! Ela diz que se eu deixasse, era ela que ficava com o bebé, que não sabe a sorte que eu tenho, que ela ia adorar estar grávida, que é uma bênção e mais aquelas tretas dela.
Se o Paraíso existisse, a Catarina merecia um lugar de destaque só por me aturar. Ela é mesmo cinco estrelas, tenho uma admiração profunda por ela, não sei como é que ela me atura! Dá-me imensa força, é a minha única amiga, a Mãe que eu nunca tive… temos uma enorme cumplicidade que se estreitou ainda mais com esta história toda.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

~ 33

Pesquiso na Net cenas sobre adopção. O sistema português é uma merda, não quero deixar o bebé numa instituição manhosa. Quero que ele tenha uns pais como deve ser assim que nascer. Procuro noutros países. Sempre tive um grande fascínio pelos países nórdicos, e encontrei na Dinamarca um sistema de adopção internacional que me agradou muito.
A Catarina diz que eu sou doida, tenta por todos os meios convencer-me a ficar, a falar com o João, temos altas discussões sobre isto, mas vem comigo para a Dinamarca.
Isto é outro mundo, outra civilização! Nem sequer é muito frio, comparado com os outros países da Escandinávia (pelo menos Suécia e Noruega, que foi onde já estive no Inverno). Tem óptimas escolas, é uma referência mundial na educação, parece-me bem.

A Catarina arrenda um T0 que custa uma fortuna, no centro de Copenhaga, um sítio muito simpático. O bairro é muito fixe e quase toda a gente fala inglês.
Eu quero escolher os pais do bebé, não me deixam, mas eu faço questão de conhecer os candidatos. Eles só aceitam a adopção com autorização da mãe e do pai e eu digo que o pai não quer saber dele, que nem sei muito bem quem ele é e insisto em conhecer os candidatos. Isto não é tão fácil como parece no site e nos mails que trocámos.

domingo, 15 de novembro de 2009

~ 32

Não entendia o que se estava a passar, pedi à Alice para lhe ligar, para me dizer se percebia porque é que ela nos estava a ignorar e respondia tão friamente ao nosso convite.

A gravidez vai bem, apesar do desequilíbrio hormonal dos primeiros meses, tudo corre espantosamente bem. Sempre pensei que fosse muito mais difícil, a minha avó sempre me disse que eu tinha sido uma gravidez complicada, que o parto tinha sido muito difícil… Isso não ajuda nada a ultrapassar os meus medos. Mas faço tudo o que posso para que tudo corra bem, pesquiso sobre o tema, falo com o médico, não fumo (aliás, deixei de fumar na Amazónia) faço as aulas de preparação para o parto e levo a Catarina comigo. Não faço mais nada a não ser preparar-me.
Não voltei a pôr os pés na produtora e cancelei a inscrição do ginásio, não me apetece nada ser gozada à força toda por me ter deixado engravidar.
A parte de ter de contar aos meus amigos como é que isto aconteceu é que é mais complicada. Mas também não preciso de explicar muito, eles imaginam o resto e riem-se à fartazana na minha cara, filhos da puta.
A Catarina tem sido impecável comigo. Sem ela, não sei se teria conseguido manter a sanidade mental até aqui. A única chatice é que sempre que pode, ela toca no assunto João. Eu estou sempre a adiar, não preciso dele para nada. Ela diz que eu sou burra e orgulhosa, que ele tem o direito de saber, blá, blá, blá…
A Alice liga-me. Pede-me desculpa por não ter ligado antes, teve alguns problemas de saúde (traduza-se reabilitação da coca) e quer saber como eu tou, como tinha sido na Amazónia e sobretudo, como tinha corrido a viagem aos Açores. Deve achar-me muito burra, a pensar que eu não sei que tudo o que eu lhe disser, ela vai contar ao outro. Aposto que foi ele que lhe pediu para ligar! Tento ser o mais breve possível nas minhas descrições, digo que os Açores foi bom, mas assim um bom a soar a pequeno. Ela tenta convencer-me a ir com eles, que me pagam a viagem, o que eu começo a achar insultuoso, e volto a dizer que não. Ela ouve o meu Ah! de espanto e pergunta-me o que foi. O bebé escolheu uma bela altura para me dar um pontapé. Digo-lhe que me assustei com uma parvoíce qualquer, sem importância. Que belo sentido de oportunidade…

A Alice disse-me que a achou muito estranha, na defensiva, que havia alguma coisa que não batia certo. Ela achava que o Brasil era só uma desculpa. Sabe que eu estou mesmo interessado em voltar a ver a Nádia e empenha-se a ajudar-me.

sábado, 14 de novembro de 2009

~ 31

Fazia dois meses desde o encontro no aeroporto e a Nádia ainda não me tinha dito absolutamente nada. Andava com tanto trabalho que nem tinha tempo para lhe ligar a horas decentes, e também já nem sabia como a abordar. Não parava de pensar nela, queria vê-la, queria tê-la, o meu pensamento passava sempre por Portugal, pelas Flores, pelo aeroporto… Decidi escrever-lhe outro e-mail com uma sugestão tentadora:

“Assunto: mini férias de Natal
Olá Nádia, que é feito de ti? Por cá está tudo bem, muito trabalho, estou a planear umas mini férias com a Alice nos Alpes, entre o Natal e a passagem de ano, ela vai lá dar uns concertos, juntamos o útil ao agradável. Não queres vir passar o fim de ano connosco?
Fica aqui o convite. Aparece, e prepara-te para mais uns momentos inesquecíveis!
Beijos,
João & Alice”

“Filho da puta, filho da puta! Vai para os Alpes com a Alice e eu aqui neste estado! Ele bem que merecia que eu chegasse lá e lhe mostrasse o que ele fez! De certeza que ia perder a vontade de fazer sexo em grupo num instante! ”
A Catarina bem me tenta acalmar, diz para eu falar com ele. “Mas é que nem penses! Nem sonhes em falar com ele nas minhas costas, ok?"
Tens de me deixar decidir o momento certo, tens de respeitar a minha decisão, ouviste!?!”
Depois percebo que ele tem tanta culpa como eu, e se alguém não tem culpa é o bebé, por isso tento não me passar tanto e ver as coisas com clareza. Não é fácil.
Já percebi que não há meio de me livrar da gravidez, não vou fazer nada estúpido que prejudique o bebé, se ele resistiu até agora dentro de mim, dificilmente vai sair sem vida.
Não quero ficar com ele, isso está fora de questão.
Decido escrever-lhe a dizer “o convite é tentador, mas prefiro praia a neve. Já combinei que vou passar o Natal no Brasil com uns amigos, fica para a próxima, Obrigada. Boas Festas e divirtam-se. Nádia”. Ele era capaz de achar estranho se eu continuasse a ignorá-lo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

~ 30

GRÁVIDA!?!? Não pode ser! Repeti o teste 3 vezes, fiz o exame de sangue e ainda não acredito. Como é possível?!?! A médica explica-me vezes sem conta que o contraceptivo que eu tomei não é 100% eficaz, explica-me a cena toda da fecundação e das hormonas, mas eu não caibo em mim.
Se estou grávida, quero abortar! A médica faz-me uma ecografia. Explica-me com muita paciência que o bebé está com 16 semanas, está bem desenvolvido, que se ele se virar, vai dar para ver o sexo. EU NÃO QUERO SABER O SEXO! Percebo que é demasiado tarde para abortar e entro em pânico. A Catarina não vai acreditar…

Na verdade, os sinais eram mais que evidentes, eu é que não queria ver, adiei o mais que pude a consulta e deu nisto…

Como é que é possível?! Eu GRÁVIDA! Isto é a prova que Deus não existe. Ou se existe, não é lá muito inteligente, porque nenhum ser supremo com dois dedos de testa deixaria
que eu engravidasse! Nem que fosse a última mulher do planeta! Logo EU, o centro do universo! Eu, que trabalho a recibos verdes! Ah, EU, que detesto criancinhas aos berros!
É demasiado injusto: tanta gente infértil a gastar rios de dinheiro a tentar ter filhos, e eu, que jamais me passou pela cabeça pedir tal coisa, tesa que nem um carapau, apesar de todos os cuidados, pimba!!!! “Porquê eu?” Pergunto à Catarina, mas ela não me sabe responder, está tão em choque como eu, pelo menos poupa-me ao “eu bem te disse para ires ao médico”.
Agora tenho que carregar um ser estranho na barriga mais uns CINCO MESES… Adeus curso de realização, adeus viagens de trabalho de quatro meses, ou melhor, adeus a qualquer tipo de viagem nos próximos anos. Não, não pode ser, é mau demais, eu não mereço isto!
FILHO DA PUTA! CABRÃO DE MERDA! Onde é que eu estava com a cabeça?!?! Se ele estivesse aqui, dava-lhe tanta porrada!...

domingo, 13 de setembro de 2009

~ 29

Tenho andado bué mal disposta, devo ter comido alguma coisa que não devia. Tou a ficar mais gorda, as calças estão-me apertadas, farto-me de comer, depois é no que dá. O que vale é que não tarda, piramo-nos daqui, já tou com saudades de casa, da minha Catarina linda!
Quatro meses passados, e finalmente a data de regresso marcada para daqui a duas semanas. A chuva também acabou por atrasar algumas filmagens, o Jorge passa-se porque ultrapassou largamente o orçamento, mas está feito.
A Catarina, claro, vem buscar-me ao aeroporto. Sabe tão bem abraçá-la! “Fica-te bem!” “Piolhos.” Tive de rapar o cabelo todo.

Precisava de ir a Lisboa para ver as obras da Academia e acertar alguns pormenores, lembrei-me de ligar à Nádia para saber se ela tinha chegado, mas ela ainda tinha o telemóvel desligado. Liguei à Catarina, ela disse-me que ia chegar nesse dia e combinámos cruzarmo-nos no aeroporto.

A Catarina diz que tem de ir à casa de banho e pede-me para esperar no bar. “Não podes mijar em casa, caralho?” Não me apetece nada esperar, tou cansada, quero ir para casa, mas ela insiste, ok.

“Nádia! ” Oiço-o atrás de mim. Nem preciso de me virar para saber que é ele. Um rasgo de irritação percorre-me. Mas o que é que ele tá a fazer aqui? Isto cheira-me a arranjinho da Catarina…

Ela estava diferente, cabelo rapado, mais morena, tinha ganho algumas curvas, o que fazia com que os seios também ficassem maiores, muito apetitosos dentro daquele top verde justinho… linda! Não sei se estava contente por me ver ou se era do frio, mas aqueles mamilos espetados tiravam-me do sério…

Abraça-me e dá-me um chocho na bochecha. Está de partida, o que é um alívio para mim, não ter de me confrontar mais com ele.

“Fico contente por saber que está tudo bem contigo!” Senti-a distante, a querer despachar-me, por isso decidi não falar do nosso encontro e de como eu gostava de o repetir. Entretanto, já se ouvia o chamamento para o meu voo. Desejei-lhe boa sorte para o futuro e despedi-me com um beijo na testa. Ela sorriu timidamente e eu pedi-lhe para me ligar. Fiquei mesmo com a sensação de que não o iria fazer. Lésbicas ou não, há mulheres difíceis de compreender.

É Setembro e tá um frio do caraças em Lisboa, vou constipar-me de certeza. A Catarina é tão querida, trouxe-me um casaco!
Confronto a Catarina com aquele encontro, ela admite que ele lhe ligou e ela combinou tudo, que tinha estado a ver nós conversarmos. “Ele está caidinho por ti, fazes dele o que quiseres, acredita! ” A Catarina está a irritar-me com esta conversa. Eu agora preciso é de descanso e ela chateia-me o caminho todo “se fosse eu, ele já não saía de cá, ou ia com ele para Londres, e nha, nha, nha…” que chata! Berro com ela para se calar e não a deixo abrir o bico até casa.

“Lar, doce lar! Até que enfim!” As saudades que eu já tinha da minha bela caminha!...
A Catarina acha estranho eu estar mais gorda. É natural, fartei-me de andar e até nadar no Amazonas, mas também comi que nem uma mula. Os ares da floresta tropical abriram-me o apetite, fazeram-me comer por dois. Tenho saudades das artes marciais. Pergunta-me se fui ao médico, se tenho tido o período e mais uma enxurrada de perguntas. Não há pachorra, uma pessoa a querer descansar e ela a chatear, armada em mãe… Faz-me prometer que vou ao médico amanhã.

sábado, 18 de julho de 2009

~ 28

Merda, acho que apaguei as fotos das Flores, não acredito! Procuro desesperadamente por elas no cartão, mas não as encontro, eram as primeiras, não estão aqui! Espera, devem tar no outro cartão, só espero não o ter perdido. Se as fotos vão parar às mãos erradas… o que vale é que não deve dar para identificar ninguém. Ah! Encontrei-o! Revejo as fotos que tirei ao João com um sorriso. A prova de que o encontro foi real.
Quando chegar a casa vou montar isto e imprimir. Vai ser uma bela recordação!
Tenho tanta merda para fazer que não posso perder tempo a pensar nisto. Recomeçaram as filmagens, tamos bué atrasados, vamos ficar mais tempo que o previsto.

Dois meses depois de ter enviado o e-mail à Nádia ela ainda não me tinha respondido. Eu sabia que ela devia ter mais que fazer, mas recebi o read receipt no dia seguinte ao envio. Tentei ligar-lhe, mas não devia haver rede por onde ela andava. Devia ter pedido o contacto da amiga dela…

quinta-feira, 16 de julho de 2009

~ 27

A vida continua como sempre, dois meses depois das Flores. A Alice está a recuperar bem, já está a trabalhar, mas ainda a meio gás.
Contei-lhe o que se passou nas Flores, ela diz que estou apaixonado pela Nádia. Não sei se é paixão ou entusiasmo, a verdade é que ela não me sai da cabeça…

Tamos com alguns problemas com as autorizações que atrasam bastante as filmagens, já perdemos alguns dias. O nosso guia é um gajo fixe, aproximo-me dele e começo a pensar que ele era capaz de ser bom para eu tirar a prova dos 9. Ele parece achar-me piada.
Enquanto esperamos pela merda da burocracia, damos um passeio e as coisas aquecem. Trocamos uns beijos na floresta cerrada, uns amassos contra as árvores, o gajo começa a despir-me, e eu a ele, mas na hora H, eu pergunto-me que raio é que estou a fazer, há alguma coisa que não bate certo. Peço-lhe desculpa e recuo. Ele fica fodido comigo, claro.

Consigo encontrar a Catarina no Messenger!
Nádia, a amazona! diz:
Olá gaja, como tá tu?
Cat diz:
Tá-se bem, e tu lindona?
Nádia, a amazona! diz:
tb. andei a fazer das minhas :-)
Cat diz:
Conta, conta!
Nádia, a amazona! diz:
enrolei-me com um gajo :-S
Cat diz:
:-o eu n te disse…
Nádia, a amazona! diz:
n é nada do que tás a pensar, n fui até ao fim.
Cat diz:
Como assim?
Nádia, a amazona! diz:
Na hora H, passei-me e desisti da ideia.
Cat diz:
e ele?
Nádia, a amazona! diz:
ele é bacana, é o nosso guia. pedi-lhe desculpa, mas agora evito-o ao máximo. foi um bocado estúpido o q fiz, admito.
Cat diz:
eu já te conheço Nádia, tu estás apanhadinha pelo outro!
Nádia, a amazona! diz:
tás-te a passar? aquilo foi só sexo!
já não tenho muito tempo para estar aqui, como está a correr a exp?
Cat diz:
foi, foi, eu conheço-te! A expo tá a correr bem, n tentes mudar de assunto!
Se foi só sexo, pq n o fizeste tb com o guia? Para ti nunca é só sexo, foste tu q me disseste, lembras-te?”

Pois, ela realmente tem razão, eu disse-lhe isso, a parte de conquistar (e ser conquistada) muitas vezes é a melhor parte. Neste caso com o guia, não deu grande pica a conquista, nem me senti conquistada, talvez tenha sido por isso que não quis continuar, não sei.

domingo, 17 de maio de 2009

~ 26

Enviei um e-mail à Nádia, a dizer que o resultado das análises foi negativo. Queria saber se ela estava bem, se já tinha ido ao médico, pedi desculpa por não ter escrito antes por causa do problema da Alice, mas que já estava a melhorar. No fim disse que gostei muito da estadia dela nas Flores e que gostava de repetir.

O segundo mail interessante que recebo é dele. É muito curto e objectivo, pergunta-me se estou bem, deixa-me preocupada com a Alice e diz que gostava de repetir o que fizemos nas Flores. Não sei o que responder, por isso vou adiando a resposta. Tenho trabalhado imenso, isto é cansativo, exige muita resistência e paciência, chego ao final do dia e estou exausta.

~ 25

Inicialmente, ficamos em Manaus, mas depois vamos para a selva, andamos de jipe, de barco, a pé, acampamos em tendas, onde calha.
A paisagem é verde, verde, verde… é outro mundo, as pessoas são um bocado desconfiadas de início, mas depois aceitam-nos bem.
Os telefonemas são contados ao segundo. Temos algum tempo de satélite e aproveitamos para enviar mails e falar um pouco com os amigos e família. O primeiro mail que recebo é da Catarina, a perguntar como correram as viagens e como foi nos Açores. Conto-lhe o que se passou sem grandes pormenores, mas ela quer saber tudo. Depois manda-me outro mail com uma frase que não me sai da cabeça:
"Sabes o que eu acho? Tu não és lésbica coisa nenhuma, tens é assuntos mal resolvidos com homens!"

E eu fico a pensar nisto. Será que ela tem razão? Isto abala-me um bocado. Como é que eu posso testar a teoria dela? Tou no meio da selva com os meus colegas, não me vou envolver com ninguém da equipa.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

~ 24

Acordo, demoro algum tempo a perceber onde estou. Já é de dia. Levanto-me, vou à procura dele e encontro umas folhas escritas à mão, em letras grandes e elegantes:

"If I could only touch your soul
The way I touched your body
I would be the happiest man on earth
If I could be with you forever
Like I'’ve been today
I would be in Paradise"


Era suposto eu ficar impressionada com isto?

Estava a preparar o almoço quando ela acordou finalmente. "Que horas serão?" "Quase meio-dia." "Hã?! Meio-dia?! A pílula, vieram entregar? Por que não me acordaste? Já passaram o quê, umas 12h? Merda, essa merda é mais eficaz se for logo tomada!"
"Tem calma, diz aqui que pode ser tomada até 72h."
"Era só o que me faltava era esta merda, foda-se!"

"Temos de ir fazer as análises. E convém ires ao médico assim que puderes."
Sim, até parece que vão chover médicos para onde eu vou! Anyway, as hipóteses de engravidar depois de tomar isto são muito remotas.

Almoçámos no alpendre, passeámos pela ilha, mostrei-lhe os meus sítios preferidos e levei-a ao aeroporto. Que pena ela ter de ir embora…

Ele despede-se com um beijo cinematográfico que me deixa embaraçada. Sempre fui muito discreta em público, mas soube bem.

A viagem corre bem até Toronto, excepto o gajo ao meu lado que ressona que nem um porco. Ainda bem que trouxe o ipod, mesmo assim, com o volume no máximo ainda oiço o ressonar de fundo. Sinto-me um bocado mal disposta e reparo que tou com uma hemorragia. Nada de grave, parece que é normal depois de ter tomado aquela merda.
Depois encontro o resto da equipa e vamos no mesmo voo para o Brasil, já é bem melhor.