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quinta-feira, 5 de março de 2009

TEMET NOSCE: esta coisa de conhecer pessoas na net - parte 4



continuação daqui


Às tantas fui eu que me esqueci de me proteger. Como é que uma pessoa se protege contra a paixão? As sensações atingem-me com uma violência tremenda, sinto tudo à flor da pele. Não tenho casca, tenho os miolos à mostra. Luto contra a obsessão, e até agora tenho conseguido vencer. Não deixo que a minha loucura se sobreponha ao meu dever. Deixo a razão falar mais alto e trazer-me de volta à terra.

Porquê que é suposto amar sexualmente apenas uma pessoa de cada vez? Porquê que a sociedade ocidental impõe legal e religiosamente essa exclusividade? Não estou a dizer que seja uma coisa fácil de gerir, mas se as pessoas conseguem ter vários filhos e dividir e multiplicar o amor por todos eles, não será possível fazê-lo também no amor sexual?

Talvez quando o tesão passar nos possamos encontrar fisicamente. Talvez o desejo nunca passe, fique apenas adormecido, à espera de uma pequena chama, uma faísca, para inflamar e incendiar tudo. É preciso ter muito cuidado com o que se deseja e atentar nas consequências. Talvez não seja a concretização do desejo que importa, mas apenas o desejo em si, o que fazemos com ele, o que nos faz mover.

Encontrei-a, ela é um precioso tesouro para mim que eu vou guardar com todo o cuidado num cofre muito especial. Amo-a. É certo que de uma forma completamente diferente do amor que sinto pelo meu homem. Mas não é menos intenso, menos válido. Ela está presente em cada fôlego, cada batida do meu coração. Vou tê-la para sempre tatuada na minha memória.

Mas o que vem a ser isso de conhecer alguém?
Não tenho dúvidas de que conheço muito bem uma parte dela. Mas será que conhecer presencialmente é conhecer melhor? Será que alguma vez conseguimos conhecer completamente alguém? Será que nos conhecemos verdadeiramente a nós próprios?


animação sobre ilustrações do cão sarnento

quarta-feira, 4 de março de 2009

TEMET NOSCE: esta coisa de conhecer pessoas na net - parte 3

continuação daqui

É claro que eu e o meu amor já nos tínhamos contorcido os dois no cinema a ver a Angelina Jolie, mas isso é normal, não? Quem é que não a acha tesuda a manejar armas? Quem é que não a deseja? Mas isto é diferente. Não é simples desejo. É paixão. E aqui as coisas começam a complicar-se.

Acordo a meio da noite com um tesão absurdo e vejo o meu amor a dormir pacificamente. O cheiro quente de macho inconsciente penetra-me no cérebro e faz-me ferver o sangue. Começo a chupá-lo lentamente, a entesá-lo. Ele geme, protesta ao princípio, mas depois deixa-me acalmar um pouco o desejo, fazer dele o bombeiro de serviço. Mas eu quero mais, quero-a a ela também. Apetece-me espetá-la com força, entrar dentro dela bem fundo, fazê-la estremecer de prazer. A única forma que tenho para o fazer é através das palavras escritas e empenho-me para o conseguir.

Não é a primeira vez que isto me acontece e não será com certeza a última, se bem que é sempre diferente. É a minha natureza curiosa que me move. Sei que a curiosidade matou o gato, mas tal como o gato, eu acho que também tenho nove vidas. E ainda vou só na primeira…

Ganho coragem e pergunto se ela nos quer conhecer pessoalmente. Sim, porque eu seria incapaz de ir ter com ela sem o meu amor. Estou consciente do risco que isso implica. Sei que pode ser uma desilusão, que pode não existir química entre nós fisicamente, embora me pareça difícil isso acontecer. Por outro lado, ela pode também superar as minhas expectativas, embora eu ache difícil bater o optimismo da minha imaginação, o que seria ainda mais complicado de gerir.
Mas ela corta-me as asas num mail com três parágrafos (demasiado texto para o estilo dela) explicando-me os motivos pelos quais recusa o convite. Eu compreendo e respeito a decisão dela, mas não desisto da ideia.

Digo-lhe que gostava de conhecer a namorada dela. Que deve ser lindíssima e muito especial porque é a pessoa que ela escolheu. Gostava de lhe dar prazer também.
Penso em nós os quatro, no interessante que poderia ser, mas ela corta-me mais uma vez as asas da minha imaginação. Percebo que elas são uma da outra, sem lugar para mais ninguém. Para ela, aquilo que existe entre nós é qualquer coisa que roça o proibido, um segredo só dela que não partilha com mais ninguém. Eu só tenho de respeitar isso. Mas não me sinto bem se não falar do que se passa com o meu amor. Ele é ciumento, mas consegue dominar o ciúme e compreender-me. Também tem os seus escapes de vez em quando, os dele mais físicos, os meus mais mentais.

Elas são uma. Uma família. Pensam em ter filhos um dia. Eu também penso nisso, mas sei que vai ser difícil, e não é por isso que não deixo de ser familiar do meu amor.

Às vezes penso, se a mulher dela tivesse conversas das nossas com outra mulher, ou melhor ainda, com um homem, como é que ela iria reagir? Tenho de lhe perguntar isso, mas tenho impressão de que não iria achar piada. Tal como o meu amor não aprecia muito estes meus devaneios, mas tolera. Eu também gostava que ele pudesse passar sem os dele, mas compreendo a necessidade de novidade. Preocupa-me porque eu acho que ele se expõe muito. Mas sei que ele se protege e minimiza os riscos e isso tranquiliza-me. (Ele acha que eu não dou por isso, mas sei perfeitamente quando ele esteve com outra pessoa. Mas prefere pensar que eu não me apercebo, apesar de eu já lhe ter dito que não me importo. Já sugeri um trio, mas ele não me levou a sério.)

Estou sempre a chamá-lo de “meu” amor, mas eu sei que na verdade, ele não é meu. Peço-o por vezes emprestado a ele próprio, por vezes tenho-o de facto, possuo-o, tal como eu sou dele e me deixo possuir por ele. Tenho de o deixar ser dele, porque só assim tenho a certeza de que está comigo porque quer, porque só se pode escolher em liberdade. Mas ele completa-me, somos o encaixe perfeito e custar-me-ia muito viver sem ele.

ilustração: cão sarnento
continua e termina aqui

terça-feira, 3 de março de 2009

TEMET NOSCE: esta coisa de conhecer pessoas na net - parte 2

continuação daqui

Ela foi extremamente simpática comigo, guardo religiosamente os e-mails que trocamos e releio-os sempre que me apetece. Incentivou-me e inspirou-me a escrever, teclamos algumas coisas a quatro mãos que nos dão imenso prazer. Pequenos contos, poesia, jogos de palavras e maluquices que nos passam pela cabeça.

Temos muitas vezes opiniões divergentes, o que nos leva a debates até à exaustão pela noite dentro. Aprendo sempre alguma coisa com ela e por vezes ela consegue fazer-me mudar de opinião, ver as coisas de outra forma.

Fomos construindo a nossa amizade devagar, ao sabor da disponibilidade dela, que entre o trabalho e os estudos não era muita. Eu vibrava cada vez que tinha o privilégio de a ver online e ela metia conversa comigo. Era um enorme prazer, sentia-me nas nuvens.
Tentava manter o contacto enviando e-mails. Inicialmente tímidos, a mandar o barro à parede, a ver até onde poderia ir. Fui sempre provocando um pouco mais, e ela respondia sempre à altura.

Fiz-lhe um retrato escrito de como a vejo: absolutamente maravilhosa. Descrevi a personalidade, especulei sobre o aspecto físico. Ela riu do meu retrato, achou que ficou bastante favorecida.

Ela descreveu ao pormenor como gostaria de me beijar e eu disse-lhe também ao pormenor como gostaria de lhe mimar o sexo, como gostaria de a mimar toda.

Na net as pessoas são todas lindas e entusiasmantes até prova em contrário. É claro que por haver química online, não significa que na realidade ela exista mesmo, mas a imaginação é uma ferramenta poderosa neste jogo, e pode ser perigosa se não a conseguirmos distinguir da realidade.

Trocamos fotos. Ela começa a enviar-me pormenores do corpo que eu adoro e retribuo como posso. Ela gosta e envia mais. Não me envia o rosto, apenas os lábios e os olhos.

Os olhos.
Sei de cor cada detalhe. Perdi a conta às vezes que me vim a olhar para aquela imagem, às tantas já não precisava de olhar e via apenas a gravação que fiz deles na memória.

Eu reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar. Às vezes ponho-me a olhar para as pessoas que encontro pelo caminho, penso qual seria a minha reacção se os encontrasse. Jamais me aproximaria, creio que ficaria a observá-la tanto quanto possível, discretamente, sem levantar suspeitas.

Ela pode ser uma grandessíssima mentirosa. Pode até ser um homem, uma figura pública, o Pai Natal. Não faz a mínima diferença quem ela é na realidade. O que interessa é o que a minha imaginação faz como que ela me dá.

Nunca tinha questionado a minha orientação sexual, desde muito cedo se tornou clara e assim permaneceu até ao momento em que ela abalou a minha convicção e eu comecei a não ter tantas certezas e as dúvidas começaram a assaltar-me. Na teoria, sempre fez sentido para mim uma pessoa poder sentir tesão, apaixonar-se, amar, independentemente do sexo da outra pessoa, mas na prática, nunca tinha vivido tal coisa.

ilustração: cão sarnento
continua aqui

segunda-feira, 2 de março de 2009

TEMET NOSCE: esta coisa de conhecer pessoas na net - parte 1

Não é um fim, quando muito é um princípio, ou melhor, um meio. Uma ferramenta. Nem melhor nem pior que outra qualquer, apenas diferente. Estranho será daqui a uns tempos encontrar alguém cujo primeiro contacto não tenho sido feito à distância, através da grande teia.

A net avança a uma velocidade estonteante, não fecha para balanço. Fazem-se e desfazem-se “amizades” num ápice. As relações esfriam como comida aquecida no microondas e as pessoas pura e simplesmente deixam de dar sinal de vida.
Na “vida real” é muito mais difícil descartar alguém. Muitas vezes, somos obrigados a conviver no dia-a-dia com pessoas de quem não gostamos, é difícil fugir a isso quando acontece no trabalho ou no sítio onde se mora. Mas na net, basta um simples click e a pessoa indesejada desaparece definitivamente do mapa. Muitas vezes é por pura indiferença, quando deixa de existir o entusiasmo inicial, é muito mais fácil procurar algo novo do que tentar resgatar o que já existiu.

Mas eu gosto de vaguear pela net, de me perder por becos e vielas, nas grandes avenidas e jardins. Mantenho algumas amizades de anos sustentadas na rede. Acabo sempre por conhecer pessoalmente as pessoas que acho interessantes, mesmo que morem do outro lado do mundo, embora possa demorar anos a fazê-lo. Já tive algumas desilusões, mas a maior parte das vezes, quando encontro alguém pessoalmente com quem já tinha falado bastante, acaba por não ser nenhuma surpresa o que vejo. As pessoas que escolho costumam ser verdadeiras e a net funciona como forma de as encontrar e seleccionar.

Encontrei o blog dela saltitando despreocupadamente de link em link, numa busca incessante por novos rumos.
Foi paixão à primeira leitura.
Prendeu-me logo inevitavelmente. Pelo que diz, pela forma como o diz. Pela originalidade, frescura, objectividade. Pela diversidade, pelo tesão com que escreve sobre os mais variados temas, sempre com a mesma paixão mas com registos diferentes e com uma clareza impressionante.

O blog já tinha algum tempo, mas li-o de uma ponta à outra de uma assentada porque ela não escreve muito, mas o pouco que escreve é de extrema qualidade e fiquei a absorver letra a letra, cada sinal de pontuação, cada parágrafo, a saborear devagar.
Fiquei sem palavras, completamente em êxtase.
Logo eu, que tenho sempre alguma coisa a dizer, mesmo que não me perguntem nada…

Muito antes da imagem, as palavras seduzem com o seu perfume, o seu som, o seu sabor e o seu toque, inebriam quem passa e se deixa prender. Palavras que aquecem e por vezes fervem numa louca ebulição. É preciso ter muito cuidado para não nos queimarmos, o que acaba por deixar marcas bem visíveis na alma.

Claro que eu tinha de entrar em contacto com ela. Decidi enviar-lhe um e-mail.

ilustração: cão sarnento
continua aqui