Antes do sabor, já o aroma invade o ar, os olhos arregalam-se perante o manjar, a língua percorre os lábios com as papilas gustativas excitadas, sente-se a textura, ouve-se ceder sob o poder dos talheres e só depois… o paladar - doce, salgado, ácido ou amargo. Cozinhar, comunicar através da comida, degustar, implicam a utilização de todos os sentidos. Há muito erotismo latente nisto, não há?
“És o que comes”, diz o ditado - isso reflecte-se em todas as vertentes do ser.
Cozinhar é uma forma de expressão, o estado de espírito de quem cozinha reflecte-se no prato e em quem degusta.
Existem receitas, mas costuma sair melhor quando se experimenta bastante e se improvisa e se vai buscar inspiração aos lugares mais improváveis. É isso que faz a diferença entre um arrastar de tachos, um mero exercício técnico e uma obra-prima de saborear e chorar por mais.
Cozinhar não é muito diferente de Escrever – há que reunir os ingredientes, temperá-los, apurá-los. E degustar não é muito diferente de Ler – há que compreender e digerir, tirando o máximo prazer no processo.
A selecção cuidada dos ingredientes, a preparação, são toda uma antecipação do prazer que é comer. Mas por vezes são as coisas mais simples que dão maior gozo. Pode resultar lindamente algo que é feito no momento com as sobras do dia anterior e os temperos que existem no momento. Porque o mais importante de todos os ingredientes é o Amor que se põe no prato – é preciso colocar uma dose generosa para que fique perfeito. A magia acontece quando Amor e Sabor se fundem. Bem cozinhar é química elementar, pura magia alimentar. E degustar é muito mais que comer para satisfação de uma necessidade básica, é comer com todos os sentidos, para satisfazer o corpo e a alma!
imagem: frame do filme O fabuloso destino de Amélie
Leitura recomendada: “Como água para chocolate” de Laura Esquível (obrigatória para quem gosta de comida mexicana e/ou romances que fazem água na boca). Aconselha-se degustação de quadradinhos de chocolate preto para acompanhamento da leitura.