quinta-feira, 22 de julho de 2010

motel


Tinha de ser alguma coisa especial, afinal de contas, é muito tempo!

Muito tempo… a partilhar sonhos, tristezas e alegrias, a crescer juntos…

Ao fim deste tempo todo, não é fácil descobrir coisas que ainda não tenhamos experimentado. Ela disse que tinha uma surpresa para mim, queria levar-me a um sítio e mais não diria. Na minha mente passaram alguns cenários… de certo a comemoração envolveria sexo... Estaria ela a pensar convidar mais alguém? Puxei um pouco por ela. Fez questão de esclarecer que seríamos só os dois. Riu-se e desconversou quando lhe falei em motel.

No dia anterior, mandou-me dar uma volta para fazer uns telefonemas e verificar coordenadas. como ela queria fazer mistério, fiz-lhe a vontade, fui passear para o supermercado, comprei uma tablete de chocolate daquelas de leite, como ela gosta. Ainda me perguntou se eu queria saber ou preferia a surpresa, claro que optei pela segunda, mas a desconfiar que não iria ficar assim tão surpreendido…

Estava meio atordoado, o dia era de chuva intensa, tudo o que sabia é que íamos para os lados de Sintra, continuava a suspeitar do motel, mas ela não adiantava mais nada, só sorria e dizia que eu ia gostar.

Deixei-me levar com ela a conduzir-me segundo as orientações precisas do GPS e depois de muita água e trânsito, chegámos ao local.

Tal como eu suspeitara. O sítio até era discreto, não fossem os inúmeros cartazes com o preçário. Ela comentou a falta de classe da tipografia e organização gráfica da sinalética que retirava todo o charme que o exterior poderia ter. Curioso o facto de os folhetos promocionais falarem de comemoração de aniversários, reveillons, ocasiões especiais perfeitamente lícitas, quando rapidamente se verifica que está totalmente concebido para os encontros clandestinos – a garagem privativa, o acesso directo ao quarto, o discreto serviço de quarto…

Mas ela gostou daquela sensação de clandestinidade, mesmo sem o ser. E eu também. O facto de estarmos ali exclusivamente para foder era uma novidade excitante.

O quarto era simples mas interessante, cama redonda, forrado a espelhos, permitia-nos uma visão diferente de nós próprios. Na casa de banho, uma banheira de hidromassagem esperava-nos. Há muito que ela comentava que queria sentir o poder dos jactos. Mas antes disso, dançou para mim e tirou a roupa criteriosamente escolhida para a ocasião devagar, permitindo-me fazer algumas fotos. Aproveitámos os espelhos para descobrir novos ângulos e brincámos com os vários tipos de luz existentes.

Depois foi a vez dela me despir e saborear. Estávamos com fome, pedimos algo para comer e fomo-nos comendo enquanto esperávamos. Ouvimos alguns ruídos a abrir uma porta seguidos de uma campainha – era a comida – continuámos a comermo-nos na alcova redonda e depois de saciado o sexo, saciámos o estômago.

Ela começou a preparar a banheira. O líquido borbulhante facilmente provocou a espuma do gel duche. Ela mergulhou, levou o champanhe e os bombons e eu juntei-me à festa. Com jeitinho, coubemos os dois e ela pode finalmente experimentar e direccionar os jactos. Brindámos ao amor, à saúde, à felicidade e ao sexo do bom. Brincámos um pouco, mas a banheira era demasiado estreita, pouco confortável para dois corpos fodentes.

Voltámos à cama. Apreciei uma vez mais os nossos corpos em acção como se fosse um espectador graças ao espelho redondo do tecto. Gostei do que vi e ela comentou comigo: “somos fotogénicos a foder, já viste?” E de facto, a forma como os corpos e os músculos se movem é espantosamente sensual. E dei-lhe com força, excitado por aquele estímulo extra, até ela se vir profusamente, até eu me vir de seguida. Era para isso que ali estávamos. Na verdade, o local é indiferente para mim, desde que esteja com ela.

Acalmámos um pouco entre os lençóis, aninhados um no outro, a ouvir a chuva bater furiosamente lá fora, a ver um canal porno sem som e a comentar os clichés. Experimentámos ainda partilhar um chupa duplo de morango e champanhe e fazer algumas fotos com ele saboreando-o nos locais mais prováveis do corpo, fazendo-o derreter e escorrer gulosamente antes de tomarmos duche e seguirmos viagem.

Quando saímos, o dia resplandecia de acordo com os nossos estados de espírito. Fomos pelo caminho a saborear os quadradinhos da tablete de chocolate comprada na véspera, especialmente desenhados para se encaixarem no céu da boca. Para a próxima, talvez fiquemos para a noite…

10 comentários:

Ulisses disse...

Provocante...

:)

Vontade de disse...

Gosto dessas surpresas... e é bom ver que o tempo, nem esse, apaga a vontade.

Pekenina disse...

Fantástico... Desde o cuidado a preparar a surpresa, à sensação de clandestinidade e ao prazer de saborear cada corpo e cada perspectiva que os espelhos nos dão :) O importante é terem aproveitado e gostado.
E o clandestino ficou-me... Mesmo que não seja na totalidade. :)

Beijo

Samarav disse...

muito bom, sensual e transmitiu o sentimento e o sexo entre os personagens :)

Malena disse...

Quando há cumplicidade nem é preciso nada de muito diferente. A diferença está mesmo na nossa cabeça. É bom estar assim com alguém que conhecemos bem e nos conhece bem a nós. :))

dermatologistested disse...

cheira-me a azul... :))

carpe vitam! disse...

provocante sim, como se quer sempre por aqui...

não é o tempo que apaga a vontade, mas sim a monotonia e falta de imaginação.

pois, a clandestinidade... nem sequer se pode chamar assim, mas é uma boa sensação. e os espelhos... eu gostava de saber como é que eles prenderam aquilo ao teto.

é bom saber que conseguimos trasnmitir sentimentos :)

cumplicidade é uma palavra que nos é muito querida, mas deixa-me dicordar contigo, sabe bem algo de diferente, nem que seja para darmos mais valor ao que temos.

gosto muito quando conseguimos provocar sinestesias... rosa e púrpura e branco de néon saborosos... ouves o cheirinho doce e pegajoso do chupa?

Stargazer disse...

Há algum tempo que não passava e adorei ler o relato de um dia escaldante!

Nada como a cumplicidade partilhada in the heat of the moment.

Beijo cúmplice

P.S. Que tal andam os sonhos?

Anónimo disse...

um dia cheio de tesão, como se quer e deseja...parabéns aos dois
Toque

carpe vitam! disse...

um dia escaldante temperado por uma chuva persistente para acalmar o calor dos corpos... viva a cumplicidade! (e mais uma vez agradeço as sugestões)
Quanto aos sonhos, esses, vão andando, não voltei a ter mais nenhum lúcido, mas de vez em quando lá vem um interessante.

Gracias pelo toque suave ;)