domingo, 16 de janeiro de 2011

Early Sunday Hadith...


música: Libera me por The American Boychoir

Quando empurrei a madeira velha, a grande portada abriu com um rangido, pela qual escorreu um fio de luz branca, revelando em reflexos prateados o interior da igreja sombria e lúgubre. Ela, esvoaçando no seu vestido vermelho, segurava-me com firmeza pelo pulso, com agressividade até, e os tacões dos sapatos ecoavam pelas paredes decoradas por frescos, estátuas de santos e quadros de arcanjos, um deles penetrando uma mulher com um sabre, numa perfeita analogia dos valores cristãos. Caminhava comigo pelo braço com passos decididos, bamboleando os longos caracóis negros sobre as costas, que eu com os olhos seguia, hipnotizado, de cá para lá, de lá para cá, em direcção ao altar, de onde o Cristo crucificado nos observava. Jurei que ele, com aqueles olhinhos mortiços, adivinhava as nossas intenções na casa do senhor, seu pai. As sombras que dançavam nas paredes lambiam as estátuas como línguas negras, brincando com a minha mente; vi o Cristo tentar saltar da cruz, pronto a tomar uma atitude, arregaçando as mangas, se as tivesse, como um porteiro mal-encarado.

À frente do altar, estacou de forma abrupta, ecoando a voz pelas paredes numa gargalhada, rodando sobre si mesma. Segurei-a pela cintura com firmeza e puxei-a para mim, de costas. Pressionando-a contra o meu corpo, colando-o ao dela, percebi que os saltos lhe concediam aquele dedo de vantagem sobre mim; ainda assim, afastei-lhe o cabelo com um puxão, expondo o pescoço branco e sem marcas. Ela sorria, desde a jugular, perversamente. Se tivesse comigo uma capa negra, tê-la-ia cingido em treva dentro daquele espaço já envolto em penumbra; como um vampiro de caninos afilados, quis fechar o maxilar sobre a carne imaculada, mas mordi o ar num bater de dentes reverberante, quando rodou sobre o corpo e se libertou, provocando-me com o dedo que agitava à frente do meu nariz, «nãnãnã», à medida que recuava para o altar. Fiquei a observá-la enquanto se passeava em volta deste e sentia com os dedos o toque acetinado que recobria a pedra fria. Em torno dela, havia fruta, quilos de fruta espalhada; maçãs, morangos, cerejas, ameixas, uma aguarela de cores açucaradas que contrastavam com o negrume sepulcral e religioso que nos rodeava. Poderia ela ter lá estado antes? Estaria eu a caminhar para uma armadilha? Sentou-se, rodeada por velas, umas baixas, outras altas, todas se derretendo no torpor nocturno, e cruzou a perna num movimento lento e deliberado. Fechou o polegar e o indicador sobre um morango vermelho e intumescido, levou-o à boca, trincando-o, luxuriosa, deixando que o sumo escorresse pelo canto dos lábios e queixo, como uma torrente de sangue fresco. Os meus músculos ficavam rígidos só de ver a figura dela recortada no altar do templo. Levantou os olhos castanhos vivos, brilhantes do reflexo das pequenas chamas que dançavam com as sombras e pontilhavam o espaço, num fulgor de provocação, chamando-me para junto de si.

Saltei o degrau que me separava do altar, transpirando, efervescente, apesar do frio tumular, sentindo o calor que emanava do seu corpo, o sangue pulsar-lhe nas veias, sorvendo o ar impregnado do perfume dela, arquejante. Lançou as garras afiadas ao meu casaco e puxou-me, despindo-me num movimento brusco, cravando-me os dentes no peito. Com uma cereja inchada, de um vermelho negro, acariciando-a entre os dedos, passeou-a pela minha testa e nariz, até chegar à boca, não me permitindo que a mordesse, antes esmagando-a contra os meus lábios; besuntou-me o queixo, empurrou-me para longe e riu. Com uma passada que ecoou como um martelo que cai sobre pedra, devorei os passos que nos separavam; as suas pernas fecharam-se em torno da minha cintura com a força de tenazes, ora afrouxando o aperto, ora entesando as coxas, fazendo as minhas ancas irem e virem em movimentos pendulares. Subi as mãos famintas pelas ancas dela, apertando-as com as unhas, e arranquei-lhe o vestido pela cabeça, despenteando os cabelos longos numa explosão de negro. Ao mesmo tempo que, sôfrego, a libertava do aperto curvilíneo do vestido, ela rasgava-me a camisa pelos botões, implacável, cravando as unhas vermelhas no meu peito e descendo, com força. Sabia que ficava marcado facilmente e dava-lhe gozo deixar a sua marca como se para ela não passasse de uma peça de gado. Esmagou um cacho de uvas com a mão e esfregou-o no meu peito, lambendo-o, num riso deliciado. Olhava-me nos olhos com lábios cheios que se desenhavam num sorriso malicioso. Puxei-lhe o rosto apertando-lhe a mão no pescoço. Reagiu com um suspiro que se espalhou pelo espaço vazio, frio e morto; só os nossos corpos libertavam calor suficiente para aquecer o mundo à nossa volta, o vapor da nossa respiração quente entrelaçava-se e esbatia-se na atmosfera, à medida que os nossos lábios se beijavam, chupavam, mordiam e as mãos trocavam de corpo, numa exploração atrapalhada e ansiosa, como se não houvesse dedos suficientes para percorrer todos os espaços. Sem aviso, como uma gata assanhada, enterrou os dentes no meu lábio. Chupei o sangue e, despeitado, ansiando por aquele pescoço, puxei-lhe a cabeça para trás, colocando-a sob o meu jugo, e contemplei-o, enfim à minha mercê. Era branco, imaculado, e só o Cristo que nos observava sabia o prazer que teria em deixar-lhe a minha marca. Mordi-o com força, chupando a pele com os dentes e lábios. Queria arrancar um bocado de carne. Com as mãos fechadas na minha cabeça, empurrava-me para baixo; passando-lhe as unhas nas costas, lambia-lhe os seios e os mamilos em pequenos movimentos circulares, prendendo-os com os dentes, puxando-os com os lábios; as mãos dela na minha cabeça a encresparem-se de excitação revelavam-me que gostava e os puxões no meu cabelo eram como chicotadas que me acicatavam a continuar. Ela gemia cada vez mais alto e na minha cabeça só pensava em foder, ali, em cima do altar, com os anjos a fazer de público e os santos a servir de juízes. Nada mais me interessava, só ela, nua no altar, a esmagar-me com as pernas contra o corpo transpirado e agora pegajoso das ameixas negras que mordia e espalhava pelo peito dela com a língua e as mãos, arroxeando a pele branca.

Libertei-me do seu aperto e deitei-a. O cabelo negro espraiou-se pelo altar, caindo em cascatas espirais; segurei-lhe uma perna e mordisquei-lhe a coxa, descendo lentamente com os lábios, e foi então que, abrindo-lhe mais as pernas, libertando-a do freio, encostei a língua toda, sentindo uma descarga eléctrica atravessar-lhe o corpo, da ponta das unhas de sangue até à ponta dos fios do cabelo; saboreei-a com a língua, que se mexia em círculos, de cima para baixo, explorando-a de todas as formas possíveis. Senti-a cada vez mais quente e molhada; deixava-me louco a forma como se contorcia e fazia pressão na minha cara. Gemia alto, fazendo com que toda a igreja gemesse em uníssono, num eco que ressoaria nas paredes muito depois de irmos embora, servindo de consolo a viúvas solitárias e companhia a jovens virgens. Como se fosse minha dona, mandou-me parar e, autoritária, ordenou-me que me levantasse. Ergueu-se de um pulo, sobre os saltos, e empurrou-me para o altar; trepou para cima de mim. Os seus olhos felinos e quentes não escondiam o desejo que tinha de me foder, tão forte como o meu. Montou-me com segurança, com controlo total, queria deixar bem claro que era ela quem mandava ali, definindo a que ritmo deveria mexer as ancas e erguer o corpo para melhor me torturar. Cravei-lhe as unhas numa nádega e rodeei-lhe o pescoço com uma mão, entrecortando os suspiros e os gemidos, forçando-a a acelerar, e desci pelo peito, apertando-lhe os seios, puxando-a para mim para lhe morder os lábios, doces da mistura de saliva e sumo, enquanto a sentia subir e descer sem parar. As paredes da igreja transpiravam e a própria madeira do chão e dos bancos rangia, frenética, como se fosse um ser vivo em êxtase. Os santos benzeram-se e o Cristo virou a cara para o lado… espreitando pelo rabo do olho. Os nossos corpos nus, doces e lambuzados roçavam-se um no outro e as peles em ebulição devoravam-se ao toque, extasiadas; com ela tão perto, os cabelos explodindo na minha cara, lambia-lhe a orelha, explorando cada recanto com diligência, e chupava-lhe o pescoço até ficar roxo, ignorando os seus falsos queixumes. Todo o seu corpo pedia mais, mais, mais, o que só me atiçava para lhe dar tudo o que me pedisse, tudo, numa rendição incondicional. Quem passasse lá fora, fugiria para se esconder em casa, trancaria portas, correria o ferrolho das janelas, jurando por todos os santos que, naquela igreja, os espíritos se exorcizavam. Ela gemia, eu arfava, ela mordia, eu suspirava, num ritmo frenético. Voltou a erguer o corpo; forçava-o para baixo e eu sentia que não havia forma de estar mais dentro dela. Deixei escapar um gemido que se repercutiu com os dela pela atmosfera. Rindo com os olhos, divertida, como se tudo não passasse de uma brincadeira, alcançou uma maçã vermelha; com um sorriso sedutor de Eva no paraíso, trincou-a e beijou-me: senti as nossas línguas quentes e carnudas enlearem-se uma na outra em círculos desenfreados, à medida que a maçã se derretia na nossa saliva. Chupou-me a língua e saboreou a fruta, lambendo os lábios. Começou lentamente a descer pelo meu peito, pela minha barriga, que se contorcia e encolhia ao toque quente dos lábios e da língua. Sentia que me engolia, à medida que os seus lábios subiam e desciam com tanta força e sucção que parecia querer arrancá-lo com a boca. O movimento da cabeça, os lábios que comprimiam e afrouxavam o aperto, a língua que se debatia, tudo me deixava com os nervos à flor da pele; sentia que me faria vir neste momento só de me tocar com uma pena. Ela sabia-o bem e jogava com isso, a cabra! Segurei-lhe os cabelos e puxei-a para o meu lado, deitando-a de costas para mim. Passeei as mãos e as unhas pelas coxas dela, marcando-as com cinco arranhões vermelhos e borrando-as com uma massa pastosa de açúcar. Já não havia ali fruta ou formas, tudo era uma massa de carne e sumos doces; com os dois sobre o altar, transpirados e lambuzados, sob escrutínio divino, penetrei-a, pressionando o seu corpo contra o meu com as mãos que se cravavam nas ancas e no rabo. O corpo nu e quente exercia uma atracção irresistível. Apertei-a com mais força, enquanto me mexia por trás dela, mordendo-lhe as costas até sentir a pele clara contrair-se num arrepio. Roçava o corpo num frenesi, mexendo-se com envolvência serpenteante; rodou o pescoço, os seus lábios molhados e quentes procuravam, ávidos, os meus. Apertei-lhe um seio, apertei e puxei o mamilo com os dedos, mordeu-me os lábios, entre suspiros entrecortados. O seu orgasmo era iminente e eu cravava os dentes no meu próprio lábio, para aguentar, para adiar o que se tornava cada vez mais inevitável. A um ritmo cada vez mais rápido, com os corpos em modo automático, senti o seu orgasmo, quando, no limite do suportável, lhe puxei o cabelo e enterrei os dentes no pescoço, descontrolado pelo modo como me excitava ao foder com aquela intensidade. Cada vez mais depressa, mais forte, mais fundo, explodi dentro dela, com a pele a contrair-se e a distender-se, o cérebro a forçar as paredes do crânio, num fulgor tão intenso que nos ameaçava consumir. Parámos, ofegantes, com o altar a escorrer suor e açúcar, os santos a fazer o sinal da cruz e a Virgem com uma mão sobre a cara e a outra cobrindo os olhos do Menino. As velas consumiram-se e caímos na treva prateada do fio de lua que escorria do exterior.

11 comentários:

EROTICAMENTE FALANDO disse...

Arrebatador!!!

Stargazer disse...

Foi com espanto que vi o meu Hadith favorito a escrever neste canto...

Beloved Lúcifer, não te sabia por estas paragens...

Beijo-te com saudade redobrada e renovada, a minha!

Ámen!

:)

Anónimo disse...

intensamente provocante
beijo
Toque

M. disse...

Não gosto de classifica a minha leitura com um "gostei" mas não vejo que mais dizer...

Além de ires directamente para o inferno...:)

carpe vitam! disse...

intensamente longo, violento, sumarento e provocador... aaaah, que bem que sabe!

Pekenina disse...

Breathtaking... Carpe vitam! tiraste as palavras dos meus dedos... Helel deixo-te os meus parabéns pelo texto estupendo!

Ulisses disse...

Pecaminosamente frutado...

:)

carpe vitam! disse...

Pekenina, preferia roubar-te as palavras da boca, como se de fruta muito madura e sumarenta se tratasse...


Ulisses, esta era a tal história com fruta de que te falei. inspirou a foto e também uma cena de um conto frutado que escrevi. Talvez um dia destes o publique aqui.

Di disse...

Deves estar a brincar...

Um beijo para ti Hel. :)

Tentações disse...

Seguirei o blog sempre com as minhas provações habituais ;)

carpe vitam! disse...

Tentações, nós aqui não queremos provações, apenas provoCAções. espero que tenhas comido as letras que faltam. Se for esse o caso, volta sempre, ficamos a aguardar.
Boa digestão! ;)