
Na infância e na adolescência, praia era sempre sinónimo de banhos de
mar e jogos na areia sem parar. Uma bola e (pelo menos) um par de
raquetas eram parte integrante do equipamento indispensável para passar
um bom dia na época balnear. Chateava toda a gente para jogar, ou
melhor, as pessoas que eu sabia que jogavam bem (nunca a minha mãe) e
mesmo quando não conseguia convencer alguém, jogava só comigo, batendo a
bola, alternadamente de um lado e do outro da raqueta, batendo com
força, até ao pôr-do-sol, de modo a elevá-la bem alto e ter mais tempo
para me deslocar e voltar a bater.
Na areia molhada da maré vazia era muito bom de jogar, porque a bola
ressalta, dando mais uma oportunidade ao que, na areia seca, seria uma
bola perdida. O que eu curtia! ágil e leve, brincadeira de crianças,
alternava o tempo entre mergulhos e raquetadas, nunca parava.
Com o passar do tempo, fui deixando de ter companhia para jogar e
comecei a preferir fazer coisas mais calmas na praia, como caminhar à
beira-mar, ler ou simplesmente dormir de papo para o ar, a adorar o sol.
Mas um destes dias, lembrei-me de voltar a levar o velhinho par de
raquetas para a praia. E não me arrependi. Diverti-me como dantes, entre
risos e gargalhadas, a desafiar o meu par. Uma coisa que eu notei, é
que não estou tão em forma como dantes. Raquetar a sério cansa! No dia a
seguir, doía-me os ante-braços e as coxas. Aquilo costumava ser mais
fácil. Às tantas tive de parar porque o suor me escorria para os olhos,
apesar das minhas fartas sobrancelhas, e limpá-lo à toalha. Mas continua a dar o mesmo gozo! E
é apenas uma questão de treino, como andar de bicicleta faz doer as
nádegas e depois passa com a continuação.
A ver se consigo explicar a
piada das raquetes a quem nunca a achou. É de certeza o mesmo instinto,
o mesmo prazer irracional que leva um cão a correr atrás de uma bola.
Ao contrário do ténis, em que o objetivo é pôr a bola no chão
adversário, na praia o que importa é manter a bola no ar. É um diálogo,
uma dança entre a bola e a(s) pessoa(s) que a joga(m). Pode ser preciso
como um relógio suíço; pode ser inconstante, intempestivo como um barco
em mar alto. O que importa é manter a bola no ar, custe o que
custar.
Lembro-me de pensar algumas vezes como seria o sexo com a pessoa
que estava a jogar comigo. Será que existe alguma relação entre a
performance com a raqueta e a performance com o sexo? Será que uma
pessoa que salta para chegar mais alto, que se joga no chão para
apanhar aquela bola mais baixa, usa o mesmo empenho na cama para
satisfazer o/a parceiro/a? Não reuni ainda dados suficientes para chegar
a alguma conclusão. Mas o que importa mesmo é a sensação, aquele
triunfo de cada vez que se consegue bater uma bola, principalmente as
difíceis, aquelas que parecia mesmo que não ia conseguir apanhar...