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sexta-feira, 13 de julho de 2012

o Prazer de Raquetar na praia

Na infância e na adolescência, praia era sempre sinónimo de banhos de mar e jogos na areia sem parar. Uma bola e (pelo menos) um par de raquetas eram parte integrante do equipamento indispensável para passar um bom dia na época balnear. Chateava toda a gente para jogar, ou melhor, as pessoas que eu sabia que jogavam bem (nunca a minha mãe) e mesmo quando não conseguia convencer alguém, jogava só comigo, batendo a bola, alternadamente de um lado e do outro da raqueta, batendo com força, até ao pôr-do-sol, de modo a elevá-la bem alto e ter mais tempo para me deslocar e voltar a bater.
Na areia molhada da maré vazia era muito bom de jogar, porque a bola ressalta, dando mais uma oportunidade ao que, na areia seca, seria uma bola perdida. O que eu curtia! ágil e leve, brincadeira de crianças, alternava o tempo entre mergulhos e raquetadas, nunca parava.
Com o passar do tempo, fui deixando de ter companhia para jogar e comecei a preferir fazer coisas mais calmas na praia, como caminhar à beira-mar, ler ou simplesmente dormir de papo para o ar, a adorar o sol. Mas um destes dias, lembrei-me de voltar a levar o velhinho par de raquetas para a praia. E não me arrependi. Diverti-me como dantes, entre risos e gargalhadas, a desafiar o meu par. Uma coisa que eu notei, é que não estou tão em forma como dantes. Raquetar a sério cansa! No dia a seguir, doía-me os ante-braços e as coxas. Aquilo costumava ser mais fácil. Às tantas tive de parar porque o suor me escorria para os olhos, apesar das minhas fartas sobrancelhas, e limpá-lo à toalha. Mas continua a dar o mesmo gozo! E é apenas uma questão de treino, como andar de bicicleta faz doer as nádegas e depois passa com a continuação.
A ver se consigo explicar a piada das raquetes a quem nunca a achou. É de certeza o mesmo instinto, o mesmo prazer irracional que leva um cão a correr atrás de uma bola. Ao contrário do ténis, em que o objetivo é pôr a bola no chão adversário, na praia o que importa é manter a bola no ar. É um diálogo, uma dança entre a bola e a(s) pessoa(s) que a joga(m). Pode ser preciso como um relógio suíço; pode ser inconstante, intempestivo como um barco em mar alto. O que importa é manter a bola no ar, custe o que custar.
 Lembro-me de pensar algumas vezes como seria o sexo com a pessoa que estava a jogar comigo. Será que existe alguma relação entre a performance com a raqueta e a performance com o sexo? Será que uma pessoa que salta para chegar mais alto, que se joga no chão para apanhar aquela bola mais baixa, usa o mesmo empenho na cama para satisfazer o/a parceiro/a? Não reuni ainda dados suficientes para chegar a alguma conclusão. Mas o que importa mesmo é a sensação, aquele triunfo de cada vez que se consegue bater uma bola, principalmente as difíceis, aquelas que parecia mesmo que não ia conseguir apanhar...

domingo, 15 de abril de 2012

My own private rain: o Prazer do Duche

foto: chuveiro by Narcisa


Dos prazeres simples e mundanos, o duche é sem dúvida dos meus prediletos, a minha chuva privada (partilhada ou não), completamente controlável em temperatura, intensidade e direção.

Mas se recuarmos um pouco, a água canalizada é uma invenção que nem todas as pessoas viventes conhecem como realidade desde que nasceram. De facto, as casas de banho atuais são privilégios que as casas modestas do tempo dos meus avós não possuíam.
Os cuidados diários de higiene tais como o banho são relativamente recentes na nossa cultura, mas da Mesopotâmia e de países como índia e Egipto, surgem os primeiros relatos de baldes derramados sobre os corpos. Os romanos, danadinhos para a brincadeira, praticavam orgias em banhos comuns. Davam bastante importância à higiene, difundindo as termas e as propriedades terapêuticas da água. Aproveitando os benefícios do líquido, surgiram também os banhos a vapor finlandeses (sauna) e turcos (hamam). Procurei saber a origem do SPA e verifiquei que deriva do nome de uma cidade belga, conhecida no tempo dos romanos como "Aquae Spadanae" também há que se refira a SPA como sendo acrónimo de salus per aquam ou sanitas per aquam (saúde pela água). Curiosamente, na idade média, era crença comum que a água destruía a protecção natural da pele contra as doenças e por essa razão era preferível não a lavar.  Mas muito antes disso já os gregos, para refrescar os atletas durante as olimpíadas, inventavam o sistema de canalização e o chuveiro que deu origem ao duche moderno. Curiosamente, a etimologia da palavra é do francês douche.
imagem: desenho de vaso grego, daqui

Não há nada como tomar um duche quando o cansaço aperta. Um banho de imersão espumante e perfumado, tomado com boa música, sabe muito bem de vez em quando, mas ao preço a que está a água e o gás, torna-se mais económico e prático o belo do duche. Purificador, recuperador de energias, relaxante duche.

Tanto relaxamento, vapor e toque corporal, tornam o duche num lugar propício para soltar a libido. Seja a solo, seja em companhia, a água estimula o sexo, possibilita a exploração numa atmosfera erótica higienicamente incomparável: as gotas de suor fundem-se com as de água e outros fluidos do corpo provocados pela excitação e escorrem pelo ralo após o prazer. Simultaneamente excitante e relaxante, o duche tem sido palco de inúmeras fantasias ao longo dos tempos, apenas limitadas pela imaginação. Manejar o jacto do duche com mestria, alternar água fria com quente, são apenas algumas ideias...

Existem dois tipos de pessoas: as que preferem tomar banho de manhã, e as que preferem tomá-lo à noite. (Ok, três ou quatro tipos, mas não quero falar nas que não tomam banho e das que tomam banho a toda a hora). Eu prefiro tomá-lo antes de deitar, gosto de entrar na cama de corpo e alma limpa, após a festa molhada, exclamada e cantada por cada gota (e por vezes por mim também) da bendita água!

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quarta-feira, 21 de março de 2012

o Prazer de Iogurtar

Iogurte, do turco "yoğurt", significa algo como "tornar denso". E é isso mesmo de que se trata: o leite líquido fermenta e torna-se num creme sólido, que depois de batido adquire uma textura suave e cremosa, imaculadamente branca. De sabor acidulado, com um travo azedo da fermentação, é um alimento milenar originário do médio oriente. 

Degustar iogurte é simples e natural, um prazer ao alcance de quase toda a gente. os lacticínios ocupam uma larga fatia da minha alimentação e a seguir ao leite, o iogurte está num lugar de destaque. leve, nutritivo, de fácil digestão, com aquelas bactérias todas que facilitam o processo. Muito cremoso, fresco, de textura voluptuosa, é assim que gosto dele. Adoro o travo azedo! Mas por vezes, quando não me sinto suficientemente doce, suavizo-o com mel ou pedaços de fruta. 

Há uns tempos, decidi recuperar a antiga iogurteira da minha mãe. É verdade, ainda está em perfeitas condições e faz uns iogurtes deliciosos! O processo é muito simples: a 1 L de leite fervido (de preferência gordo) junta-se 1 iogurte (gosto particularmente dos gregos). Mistura-se bem e coloca-se nos copos de vidro da iogurteira. Passadas 8 horas, os iogurtes estão prontos. É possível fazê-los sem o calorzinho da iogurteira, para isso bastando um lugar de temperatura constante, como uma mala térmica, apenas demora mais tempo. 

Existe outro processo para obtenção do iogurte, que eu acho fascinante mas nunca tive oportunidade de experimentar: através da "flor de iogurte", ou "kefir". Trata-se de um conjunto de microorganismos que produzem a fermentação e têm o aspecto de uma couve-flor. kefir vem também do turco “Keif”, que significa “bom sentimento”. Os pastores do Cáucaso, transportavam o leite em bolsas de couro, que fermentava num caldo borbulhante e azedo - o tal leite tornado denso, antepassado do iogurte moderno. O consumo regular deste alimento em terras ocidentais deve-se a algumas teorias sobre a longevidade dos povos que o consumiam regularmente há muitos séculos. Não será por acaso que uma das marcas do produto tem bem presente este facto no seu nome. 

E o sabor agri-doce do iogurte da infância?... Lembro-me dos corantes que faziam o iogurte de banana amarelo e o de morango cor-de-rosa... lembro-me de a minha avó aquecer os iogurtes que a minha mãe fazia, o que os tornava mais azedos, impossíveis de comer sem açúcar para um paladar infantil... Quem se lembra, nos idos anos 80, de uns iogurtes com embalagem em formato de D? Era um plástico branco, leve e esponjoso, com uma colher dupla de plástico branco, colada na parte de trás. Tinha sabores inovadores como "laranja", "chocolate" e "côco"... 

Não aprecio iogurtes com pedaços, preferindo os naturais aos quais junto a fruta ou o doce que me apetece. Mas há uma cadeia de lojas alimentares que tem uns iogurtes de meio quilo com pedaços de alperce que são divinais! E há também um gelado de iogurte que me tira do sério: chama-se "crystal berry", tem o sabor do iogurte da infância e pedaços de cerejas cristalizadas, ui... é de chorar por mais! 

Mas a versatilidade do iogurte vai muito mais longe, não se confinando a lanches e sobremesas. O molho de alho kebab é disso exemplo, uma combinação de iogurte, maionese, alho e salsa que liga uma bela pita shoarma ou uma veraneante salada de massa e fruta. E se tiver uns camarões pelo meio, tanto melhor! Devo referir também as suas propriedades lubrificantes no que diz respeito ao sexo. E como pode ser interessante para refrescar partes o corpo demasiado quentes, com a enorme vantagem de ser comestível. E que tal uma salada de fruta e corpos com iogurte para ligar tudo? 

Há quem coma o iogurte diretamente do copo, sem o mexer, mas eu sou incapaz de não o fazer. Tenho de testar a textura, creio que é assim que se revela o carácter do iogurte, a sua alma. Iogurtes magros, líquidos? Só em última instância, quando não houver mais nada para comer. Quando escorre lentamente pela colher e pinga, sedutoramente, tipo anúncio de tv em câmara lenta. Há coisas que têm de ser feitas devagar para se entender a sua beleza. Iogurtar é sem dúvida uma delas.

foto: Getty Images editada por mim

quinta-feira, 8 de março de 2012

o Prazer do Chá

Preto, branco, amarelo, vermelho, verde - atravessando os tempos e as culturas - muito mais do que uma simples bebida, o chá é um ritual que me agrada bastante.

A história
Oriundo dos países onde o sol nasce primeiro, diz a história que foram os chineses a descobrir que as folhas secas camellia sinensis mergulhadas em água quente resultavam numa bebida excelente, despertadora de sentidos. Os portugueses trouxeram-no do Japão para o Ocidente nas suas primeiras visitas e Catarina de Bragança levou-o para o Reino Unido, onde passou a assumir um papel fundamental nas reuniões festivas da corte, até dar nome às lendárias tea parties, que se popularizaram, deixando de ser privilégio da realeza. Atualmente é cultivado por todo o globo, especialmente nos países tropicais e climas de monção. Portugal foi também pioneiro no cultivo de chá no ocidente, existindo ainda plantações de chá nos Açores.

O ritual
Aquando das comemorações da chegada dos portugueses ao Japão, visitei certa vez uma exposição sobre a cultura nipónica e claro, o chá não podia faltar. Pude então degustar esta bebida da forma tradicional japonesa: no chão, almofada debaixo do rabo, de pernas cruzadas, em frente a uma senhora de olhos em bico, vestida de quimono, com todos os apetrechos necessários numa mesa baixa. Primeiro derreti na boca um cubo de açúcar, depois então, bastante devagar, beberiquei o chá bem quente. De seguida pude ainda experimentar a belíssima arte de dobrar papel, e ainda hoje não me esqueci de algumas formas de origami que por lá aprendi.

Gosto de o bebericar assim, na mesa baixa da sala, em boa companhia. A água ferve num piscar de olhos, enquanto se conversa e escolhe o chá. Há uma prateleira inteira dedicada aos vários tipos que perfumam o armário. Depois escalda-se o bule e colocam-se as ervas. Mais uns minutinhos para a magia acontecer (dependendo do tipo de chá) as ervas misturam-se com a água e libertam o seu aroma, sabor e cor. Retira-se o saquinho ou a bola metálica e está pronto a servir. Gostava de conseguir beber o chá quente sem o adoçar, mas o mel dá sempre aquele toque adocicadamente reconfortante que não consigo dispensar. Gosto particularmente de acompanhar com bolachinhas simples. Torrada, maria ou de gengibre, molhá-las no líquido quente até amolecerem um pouco, tentando que não se partam e caiam inadvertidamente na bebida, o que acontece com mais frequência do que eu gostaria, mas não é por isso que deixo de as beber.
Por falar nisso, vou dar início ao meu ritual, que escrever sobre o assunto dá vontade de repetir a experiência.

Os sabores
As variedades de chá dependem sobretudo do tipo de oxidação a que são sujeitas as folhas.
Para além do chá, aprecio igualmente tisanas ou infusões de frutos, flores e especiarias, combinadas ou não com chá.
Hoje escolhi uma infusão de ervas e especiarias: canela, alcaçuz, menta, chicória, roseira brava e casca de laranja. Lembra-me os serões passados no bar marroquino, uma mistura chá com leite e alcaçuz e um chá afrodisíaco com brandy, acompanhado de tâmaras recheadas com côco...

Gosto do preto forte earl grey, com o toque da bergamota; gosto do vermelho intenso com rooibos e hibisco; gosto do branco suave e floral  com rosa e violeta.

Gosto bastante de chá com leite, mas não como fazem os ingleses, apenas umas gotas de leite diluído na água, na... eu gosto mesmo é de mergulhar as ervas no leite! Aprecio especialmente uma tisana que inventei para a constipação: leite, tília, camomila e folhas de laranjeira, mel e brandy (ou Brandymel) - não prometo que cure a constipação, mas tomada antes de deitar, garante uma noite verdadeiramente tranquila, livre de preocupações e insónias causadas por nariz entupido!

Gosto dos aromas delicados, do equilíbrio de sabores... Quente no inverno, gelado no verão, é sem dúvida das bebidas mais multifacetadas que existem. Gosto, gosto, GOSTO!

Cá em casa ouve-se muitas vezes: Vai um chazinho? Qual preferes?

Foto: the_TEA_by_ireneya

sábado, 11 de fevereiro de 2012

driving you slowly: o prazer de conduzir

Há algum tempo atrás perguntaram-me se gosto de conduzir. A pergunta pareceu-me um bocado disparatada, como se me perguntassem se eu gosto de andar. Porque de facto, é isso que sinto, como se o meu carro fosse um prolongamento do meu corpo que me faz andar mais depressa, deslizar nas artérias de asfalto ou rasgar devagar pequenas v(e)ias de terra batida. Por isso a resposta é depende. Há alturas em que não me apetece andar, não gosto de filas de trânsito, nem de não encontrar lugar para estacionar. Quem gosta? Mas aprecio a liberdade que me dá para poder ir aonde me apetece, sem depender de ninguém. Tal como aprecio uma boa caminhada, conduzir permite-me viajar e conhecer os sítios que quero, dentro do meu orçamento para combustível, claro.

Mas nem sempre foi assim, foi uma conquista gradual. Ninguém nasce a saber conduzir, embora algumas pessoas tenham mais aptidão que outras. Lembro-me de quando o meu pai teve a ideia peregrina de me fazer conduzir o carro da família, na véspera da minha primeira aula de condução. Era um Ford com teto de abrir, muito confortável, 1300 cc, que eu conduzia pela bordinha da estrada, muito devagarinho, com muito medinho… até que ele me pediu para parar numa pequena subida e eu nunca mais consegui sair dali. Condutor exímio que era e fazia disso a sua profissão, perdeu a paciência e trocámos de lugar enquanto ele me explicava o ponto de embraiagem e fê-lo também numa descida, instantaneamente. Achei que jamais conseguiria fazê-lo, que se há pessoas que têm talento nato para a coisa, eu definitivamente não era uma delas, aquilo era muito difícil, era preciso muita técnica, equilibrar a aceleração e a embraiagem requeria mestria.
Não dormi muito bem nessa noite, mas escusado será dizer que a aula me pareceu incrivelmente fácil e apesar de não ser nenhum piloto profissional, não tive grande dificuldade em passar à primeira no exame de condução, embora na altura nada fosse intuitivo e tivesse de estar sempre a lembrar-me de pôr a 1ª quando parava e fazer muitas azelhices típicas de maçarico do volante.

Mas practice makes perfect, e nada como conduzir mais para conduzir melhor. Depois de alguns anos de treino, uma perfeita simbiose aconteceu e máquina e eu passaram a ser um só, o tal prolongamento do corpo, com o qual me posso expressar e deslocar. Claro que isto não acontece com todos os carros, apenas com os que conduzo habitualmente, já sei instintivamente o espaço que necessito para virar, para fazer qualquer manobra, sei a quantidade de aceleração necessária para equilibrar o ponto de embraiagem instantaneamente e onde estão todos os botões necessários. Ligo o piloto automático e por vezes vou parar aos sítios sem me lembrar muito bem como, embrenho-me de tal forma em outros pensamentos e deixo o meu corpo, a minha memória, fazer o resto automaticamente.

Sem dúvida que as máquinas mais caras que eu já manobrei são carros. E durante uns tempos, tive oportunidade de manobrar bastantes, de todos os tamanhos e feitios, e perceber que cada um é diferente, com um temperamento próprio, não me consigo entender com todos à primeira. Mas com algum diálogo, alguma prática, todos são conduzíveis. Um carro pode também ser uma arma letal. Felizmente, nunca tive nenhum acidente aparatoso, apenas alguns sustos, uns provocados por mim, outros tantos provocados por outros condutores. Tenho muitas vezes consciência de que se me despistasse à velocidade que vou, não apanharia apenas um susto. Mas conduzir na estrada é um acto de fé, com riscos minimizados se obedecidas as regras elementares de segurança. O cinto é automático, já me livrou de várias mazelas, nem me sinto confortável se não o puser, parece que falta qualquer coisa.

To drive or to be driven? Dá sempre vontade de agarrar o volante? Quem não gosta(ria) de ser levado ao colo de vez em quando? Quem não gosta de dormir no lugar do pendura quando confia em quem conduz? Caríssimos condutores, companheiros de estrada, dada a escolha, que preferem?


Música: Are you gonna go my way?, Lenny Kravitz
Foto: Corbis

post relacionado: moto | 360º 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Curiosidade: o prazer de a saciar e matar

 foto: Corbis

Muito curiosa, esta Curiosidade, uma espécie de bicho altamente sedutor que gosta de roer as mentes que se questionam… Ela vem de mansinho, num andar felino, charme irresistível. Gosta muito que lhe façam todas as vontades. Caprichosa, vaidosa, persistente, mói o juízo a qualquer um que se questione sobre o que quer que seja.
E não fica satisfeita enquanto não for saciada. Não descansa, não pára de roer, noite e dia, a atazanar. Só desaparece quando finalmente lhe fazem a vontade.
Mas depois, quando menos se espera, volta, cheia de falinhas mansas, a azucrinar, a testar a paciência, mais uma vez, e outra, e outra. Claro que eu não lhe resisto. Eu bem tento, mas é tããão difícil…

Não me interpretes mal, eu não tenho a pretensão de querer saber tudo, só quero saber o que preciso – é nisso que consiste a Sabedoria, eliminar o excesso, saber o que é realmente útil. Mas a Curiosidade, ah, a puta da Curiosidade não me larga!

Sacio-a. Cozinho para ela todas as iguarias que me pede e deixo-a alambazar-se. Satisfaço do mesmo modo todas as suas perversões sexuais. E, confesso, dá-me um gozo tremendo fazê-lo. Cada vez que o faço, aprendo a ser mais eficaz. Faço-o com fervor, a espumar de raiva, enquanto planejo a vingança. Mania de desinquietar! Está uma pessoa sossegadita, na sua vidinha e é assaltada de repente, quando menos espera, por este monumento à inquietação!...

Penso em discipliná-la, castigá-la de todas as formas possíveis e imaginárias (mais imaginárias que possíveis) e quando ela menos esperar:

Passo o fio da lâmina languidamente pelo pescocinho branco imaculado, num golpe certeiro, abrindo a jugular e fazendo jorrar o sangue em golfadas ritmadas, a sentir-lhe a vida a pulsar esvaindo-se entre os meus dedos, a salpicar tudo à volta e a manchar-me o tapete… na, não é boa ideia.

Vejo-a a passar na passadeira e acelero prego a fundo, atropelando-a. Salta por cima do tejadilho do carro e com um sorriso sádico vejo-a rebolar de rojo no asfalto através do retrovisor.

Vou conversar com ela para o terraço e atiro-a do vigésimo andar. Vejo-a estatelar-se no chão como se fosse um ovo. Ploc!

Sirvo-lhe um chá, cumprindo o ritual do bule e da chávena, com bolachas recheadas de creme venenoso. Vejo-a engasgar-se, ficar aflita, sem ar, e assisto pacificamente, de poltrona, à sua queda.

Mas é astuta, a puta, dá luta!
Faço-me a ela e derrubo-a, sento-me em cima do peito dela e vou-lhe ao pescoço, estrafego-a!

MORRE, CABRA, MORRE! Ahahahaahahahahaha!

O prazer que me dá a sua morte é indescritível, mas ainda assim eu vou tentar. A adrenalina começa a dissipar-se na corrente sanguínea e dá lugar a hormonas mais pacíficas que me enchem de um bem-estar pós-orgásmico. Uma sensação de plena satisfação envolve-me e manifesta-se num sorriso safado. Sou exigente, mas não insaciável. Pelo menos durante uns momentos. Depois… depois há sempre uma altura em que ela volta, ressuscita com uma desculpa qualquer, qualquer coisa que é preciso saber.
Dizem que a curiosidade matou o gato, mas há que ter em conta a primeira parte da história: o gato pôs-se a jeito. E quem o faz, convém que saiba arcar com as consequências.

Gosto deste ciclo. Nem sempre consigo pôr-lhe um fim, nem sempre depende só de mim. Tento adiá-la, quando sei que não perde pela demora. Deixo-a a definhar, tento ignorar e ela desvanece-se. Não é coisa que me agrade, prefiro uma morte rápida e limpinha, de barriga cheia, quando está bem satisfeita, num golpe só. Mas sei que há curiosidades que só trazem chatices e tento evitá-las. No fundo, sei que sou eu quem tem que se disciplinar, sou eu que me sacio, sou eu que morro e renasço a cada dúvida, a cada pergunta, cada ponto de interrogação vencido.
Não me importo de estar à mercê da Curiosidade, porque me dá imenso prazer fazer-lhe o gostinho. E sei que ela volta. Volta sempre. E o ciclo repete-se. Infinitamente…

The Pink Panther Theme, Henry Mancini

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

NadAR e o Prazer de FlutuAR na ÁGUA



Eu tinha medo, muito medo no início. Custava-me a crer que tivesse vindo do líquido, a água afligia-me quando chegava ao peito. Mas fascinava-me a imensidão salgada, o cheiro da maresia, e queria mergulhar sem medo, de olhos abertos. Mariquinhas… ano após ano, tentei e melhorei. Ao meu ritmo, a conversar com as ondas. O que é uma onda senão espírito do mar, arrepio de alegria? (Sim, eu sei que existem ondas zangadas, o melhor é não nos metermos com essas. O Mar é para admirar e respeitar.)
Decidi que havia de ser peixe e esforcei-me para controlar a respiração e nadar na água doce (que de doce não tem nada, mais sabor insípido e um cheiro intenso a cloro que me faz sempre espirrar. Gosto muito mais do tempero do mar). Descobri então que não tenho vocação para peixe, nem guelra, nem elegância, mas consigo movimentar-me de um lado para o outro, dentro de água. Longe de possuir a graciosidade de um cisne ou a sensualidade de uma bailarina aquática, sou Foca (arraçada de lontra) trapalhona e brincalhona, e duvido que venha a conseguir agilidade de Golfinho, muito menos incisividade de Tubarão. Mas isso não me preocupa nem me impede de tentar aprender a fazer melhor, com mais eficácia, aprimorar a técnica, aumentar a resistência e diminuir o atrito. Treino, aprendo a respirar para me deslocar melhor e com menos esforço no meio aquático. Fora de água é tão fácil, tão instintivo que não damos importância nenhuma ao que é vital – usamos o Ar e nem lhe agradecemos a existência. Mas eu descobri a importância de Bem-Respirar com a Água, gerir a Inspiração e a Expiração.
Ó Ar, agradeço a tua existência, por me permitires respirar! Não sei viver sem ti, nem um minuto consigo passar, ó Ar!
Admiro toda a leveza que o ambiente líquido permite, uma reinterpretação da gravidade, da realidade. Os sentidos submersos têm outras prioridades, reina o tato em detrimento do olfato; a água anula o gosto, muda a visão e deturpa a audição. Admiro a natação sincronizada, os saltos perfeitos para a imensidão líquida e embora esteja a milhões de léguas submarinas, lá vou tentando aproximar-me dessa Beleza. Definitivamente, acho muito mais fácil e rápido nadar de costas, mas isso é provavelmente porque ainda não me dediquei completamente à mariposa. Desenrasco-me de bruços, consigo coordenar instintivamente a respiração, maximizar os movimentos de braços e as pernas, como um sapo, tudo flui naturalmente, agora crawl… que raio que mania de respirar debaixo do sovaco é aquela? Aquilo tem alguma coisa de instintivo? Eu bem tento, respirar só para um lado, respirar para os dois alternadamente, mas acabo por inspirar quando não devia e lá me entra a água toda pelo nariz e pela boca, engasgo-me e perco completamente o ritmo. E “crawl”… que espécie de aberração é essa? Eu não quero “rastejar” na água, quero deslizar! (Mas pronto, estou a tentar…)
Gosto de ficar a flutuar, gosto da Paz que isso me dá. Na água doce clorificada é mais difícil manter-me a flutuar sem me movimentar, mas tento ficar o mais imóvel possível, a ouvir apenas a respiração e a água a ceder sob o meu peso, a vir mais ao de cima quando inspiro – é giro – encho os pulmões de ar e mergulho, a libertar milhares de bolhas a cada expiração!
Na água salgada, quanto mais sal tiver, mais fácil se flutua. Dizem que há águas tão salgadas que tornam impossível que alguém se afogue nelas, mas eu tenho as minhas dúvidas, porque basta o pânico e até um alguidar pode ser perigoso.
Mas a água já não me mete medo. Venço-a ou deixo-me ir com ela quando me canso (o corpo é mais leve dentro de água, mas o movimento tem de vencer o atrito e uma braçada ou uma pernada lá dentro, custa bem mais que vencer o ar cá fora. Com calma, a respirar. Descontrai, relaxa, regula o sono pelo cansaço. Hei-de conseguir “rastejar” como deve ser. Hei-de conseguir dominar a técnica e continuar a respeitar e admirar a Água, tão elementar e essencial à Vida quanto o Ar.

Água viva fecundante que chove na Terra
descida dos Céus, mata-me a sede
e lava-me a alma!

Alimenta as flores com o teu orvalho
do cimo da montanha nascente
a rasgar o leito dos Rios
para se fundir com o Mar!
E em brumas de espuma salgada,
sobe de novo às nuvens até evaporar!
Bem-hajas, ó Água!


música: Tchaikovsky, O Lago dos Cisnes (excerto)

foto: Getty Images (leão marinho do Alasca)

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quarta-feira, 30 de março de 2011

O prazer de Cozinhar e Degustar


Antes do sabor, já o aroma invade o ar, os olhos arregalam-se perante o manjar, a língua percorre os lábios com as papilas gustativas excitadas, sente-se a textura, ouve-se ceder sob o poder dos talheres e só depois… o paladar - doce, salgado, ácido ou amargo. Cozinhar, comunicar através da comida, degustar, implicam a utilização de todos os sentidos. Há muito erotismo latente nisto, não há?
“És o que comes”, diz o ditado - isso reflecte-se em todas as vertentes do ser.
Cozinhar é uma forma de expressão, o estado de espírito de quem cozinha reflecte-se no prato e em quem degusta.
Existem receitas, mas costuma sair melhor quando se experimenta bastante e se improvisa e se vai buscar inspiração aos lugares mais improváveis. É isso que faz a diferença entre um arrastar de tachos, um mero exercício técnico e uma obra-prima de saborear e chorar por mais.
Cozinhar não é muito diferente de Escrever – há que reunir os ingredientes, temperá-los, apurá-los. E degustar não é muito diferente de Ler – há que compreender e digerir, tirando o máximo prazer no processo.
A selecção cuidada dos ingredientes, a preparação, são toda uma antecipação do prazer que é comer. Mas por vezes são as coisas mais simples que dão maior gozo. Pode resultar lindamente algo que é feito no momento com as sobras do dia anterior e os temperos que existem no momento. Porque o mais importante de todos os ingredientes é o Amor que se põe no prato – é preciso colocar uma dose generosa para que fique perfeito. A magia acontece quando Amor e Sabor se fundem. Bem cozinhar é química elementar, pura magia alimentar. E degustar é muito mais que comer para satisfação de uma necessidade básica, é comer com todos os sentidos, para satisfazer o corpo e a alma!

imagem: frame do filme O fabuloso destino de Amélie

Leitura recomendada: “Como água para chocolate” de Laura Esquível (obrigatória para quem gosta de comida mexicana e/ou romances que fazem água na boca). Aconselha-se degustação de quadradinhos de chocolate preto para acompanhamento da leitura.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

o Prazer de dar ao pedal


Gosto muito de bicicletar por entre subidas e descidas empoeiradas rasgadas pelos pneus, sentir a irregularidade do terreno nas sacudidelas dos braços e chafurdar na lama das subidas íngremes por onde empurro a bike. Gosto também de passear por estradas lisinhas onde as rodas deslizam a alta velocidade.
Imaginar que se me espalho a 50 ou 60 km/h, espeto-me duma maneira que fico com alcatrão agarrado à pele, para além de poder partir alguns ossos, e em vez de me assustar, sorrio e mordo o lábio, ao sentir a adrenalina bombar no sangue. Bem, pelo menos, costumo usar capacete.
Já caí ribanceira abaixo, a bike lá em cima e eu de rojo até parar, esfolei apenas as mãos, braços e pernas e comi um bocado de pó. Levantei-me, limpei a terra das feridas, a pele parecia limão raspado com laivos de sangue e pequenas pedrinhas incrustadas. Voltei a montar a bike e fiz uma subida íngreme até casa. Quando lá cheguei comecei a ver tudo às pintinhas pretas e a andar à roda, tive de me deitar. Nada que o descanso e uma boa desinfectadela com mercurocromo não resolvesse.

Mens sana in corpore sano. Enquanto biclo e esforço o corpo, a minha mente voa. Consigo arejar os neurónios e ter altas ideias à velocidade que com vou. Gosto de andar de bike ao sol e à sombra das árvores e quando chove aquela chuva miudinha que quase não molha, mas refresca os lábios e dá para provar com a língua. Faço-o pelo puro prazer de sentir o vento, o cheiro, o sabor do ar, o silêncio da deslocação, a vista privilegiada da Natureza. Antes do automóvel, ia para as aulas e para o centro da cidade de bike. Depois do automóvel, ainda pensei em enfiá-la no porta-bagagens, mas logo verifiquei que não seria assim tão simples. E rendi-me ao comodismo de viajar num bólide confortável sem ter de me esforçar minimamente. E passei a usar a bike apenas para lazer, sempre que me apetecia, saía por aí a descobrir novos trilhos por detrás das colinas, novas perspectivas dos sítios que já conhecia.
Redescobri entretanto o prazer de usar o meu veículo ecológico de duas rodas como meio de transporte. Tenho o privilégio de morar relativamente perto do trabalho, mas não tão perto que possa ir a pé, por isso levo o meu bad boy de quatro rodas. Mas cada vez há mais carros, demoro mais tempo em filas, um percurso que normalmente faria em 10 minutos sem trânsito, prolonga-se facilmente para o dobro em hora de ponta. E cada vez é mais difícil estacionar. Sei que não é nenhum drama comparado com as horas infinitas que algumas pessoas passam no trânsito, mas ninguém gosta de esperar se o puder evitar, não é? E antes que o sedentarismo tomasse totalmente conta de mim, pensei em encontrar uma forma de resolver estas chatices de uma vez por todas, e finalmente lembrei-me que a bike também serve para ir de um lado para o outro, e não apenas para umas voltinhas em redondo. Conheço as irregularidades do piso como os sulcos da palma da mão. Cada curva, cada mudança de roda pedaleira, numa simpática rotina. Conheço os cheiros, os sons, as pessoas que de carro me passariam despercebidas. E que bem que sabe ultrapassar todos os carros frustrados nas filas de trânsito!
- Não perco tempo em pára-arranca;

- Não tenho de me preocupar com lugar para estacionar;
- Poupo o ambiente;
- Poupo no combustível;
- Mantenho-me em forma.


Não sei por que é que não pensei nisto antes…

Foto: CORBIS

quarta-feira, 23 de julho de 2008

o Prazer de dar Sangue


Tenho estado a sentir-me a transbordar de vida, e quando vi a campanha, não hesitei. Fui dar sangue! Talvez consiga contagiar alguém com este meu entusiasmo…

Era uma ideia que eu tinha desde a adolescência, e assim que fiz 18 anos, apesar dos meus pais me terem tentado dissuadir, concretizei-a. Desde essa altura, tenho vindo a fazê-lo sempre que posso. Primeiro nos bancos de sangue dos hospitais, depois nos Bombeiros, numa associação de motards, onde calha. Em todo o lado, contando quase sempre com a simpatia de todos os profissionais envolvidos.

O motivo que me leva a fazê-lo é simples. Se eu posso ajudar alguém de uma forma tão eficaz com um gesto tão simples que não me custa nada, porque não? Desta última vez, foi no centro comercial. O espaço improvisado dava a privacidade suficiente para o fazer, e após a consulta e o teste de hemoglobina, esparramei-me na cadeira reclinada e esperei que os enfermeiros fizessem o seu trabalho, enquanto olhava para o tecto de vidro que deixava ver as nuvens e o sol a espreitar de vez em quando. Foi como se estivesse numa bela esplanada, à beira da piscina, e no final tive direito a um lanchinho.

O questionário faz algumas perguntas em relação a comportamentos sexuais e já vi a minha dádiva ser rejeitada por ter um episódio sexual (mesmo que devidamente protegido) com alguém há menos de 6 meses. E caso tivesse relações sexuais com múltiplos parceiros, teria de esperar 12 meses para poder dar sangue. Coisas que não compreendo, uma vez que as doenças são detectáveis num período de tempo inferior e todo o sangue é analisado. Neste questionário, não havia nenhuma pergunta relativamente a homossexualidade, perguntaram-me simplesmente se eu tinha algum comportamento de risco.


Eu não gosto particularmente de agulhas, acho que ninguém gosta, apesar de algumas pessoas terem mais pavor que outras. Não tenho veias fáceis, o que nem sempre torna a experiência confortável no início, mas existe algum prazer sem mistura de dor? De qualquer das formas, não é mais desagradável que fazer análises ao sangue, simplesmente demora um pouco mais tempo.

Recomendo vivamente a todas as pessoas saudáveis com mais de 18 anos e 50 kg de peso fazerem-no. É uma forma de fazer análises regularmente e ter isenção de taxas no sistema nacional de saúde. A sensação é indescritível, mas é qualquer coisa de bom, sinto-me mais leve, muito bem mesmo!


Mais informações: http://www.ipsangue.org/