domingo, 26 de setembro de 2010

teleférico

Domingo de manhã, chuva miudinha de final de Verão. Ela despertou antes do dia para servir de motorista e quis juntar o útil ao agradável, propondo um encontro com o Outro. Ele não podia ir, o que lhe causava algum nervoso miudinho perceptível por ela. Mas afinal de contas, iriam encontrar-se num sítio público, o que poderia acontecer? Não que isso lhe fizesse muita confusão, já tinham estado os três juntos, mas ficou aquela incerteza que não o deixa completamente à vontade.
Ela levou um livro para ler enquanto esperava, mas estava a ser difícil passar daquela página, não se conseguia concentrar, a paciência nunca foi virtude sua. Tinha saudades do Outro, tinham-se afastado e ela estava a tentar aproximar-se novamente, a tentar percebê-lo.
Encontraram-se à hora marcada, a tempo do pequeno-almoço. Sabia-lhes bem estarem ali os dois na conversa, uma conversa que poderia durar horas a fio sem ser monótona. Foi acompanhada dum café para ele, e uma torrada para ela, que deliciosamente dividiram.
O tempo deu sinal de melhoras e decidiram ir lá para fora. O passeio à beira-rio é sempre agradável, apesar das nuvens mal encaradas. O teleférico passeava vagarosamente as suas cabines suspensas e a ideia surgiu de imediato nas mentes de ambos.
Uma viagem de ida e volta demorava cerca de 15 minutos, optaram por viajar apenas num sentido. Não havia muito movimento, apenas uma família aguardava na fila, eles seguiram na cabine de trás. Paisagem deslumbrante, e apesar dos vidros sujos, ele ainda conseguiu tirar algumas fotos pondo a máquina do lado de fora.
Aquela cápsula semi-reservada era apenas uma oportunidade para dar largas ao desejo de ambos. Ela pensou em dizer-lhe o quanto lhe apetecia beijá-lo, mas antes de ter oportunidade de o fazer, ele sentou-se ao seu lado e consentiu com um sorriso em vez de palavras. Ela não perdeu mais tempo e beijou-lhe a boca, imediatamente correspondida por ele. E foi um longo beijo abraçado, um matar de saudades, uma pacificação do desejo que em vez de acalmar apenas se tornou mais premente.
Respiração ofegante, mãos nos cabelos, mordidelas de pescoço, lambidelas de orelha, mãos que percorrem as partes mais sensíveis dos corpos excitados. A vertigem, não das alturas, mas do querer.  Ela traz um vestido leve e quando ele se apercebe de que ela não tem roupa interior, fica doido. Ajoelha-se e começa a lamber-lhe o sexo, a saborear devagar. Ela fica um pouco atrapalhada, olha para todo o lado, a família da frente está entretida com a paisagem e bastante distanciada, permite-se fechar os olhos por uns instantes e inspirar aquela loucura. Depois segura-lhe o rosto e puxa-o novamente para a sua boca, a sentir o seu próprio sabor. A vontade de retribuir era muita, ela sentia a intumescência nas calças, mas limitou-se a senti-lo com as mãos por cima da ganga enquanto se beijavam. A viagem alucinante estava quase a terminar, a família da outra cabine já olhava de soslaio para os dois amantes e tiveram de regressar à terra. Completamente molhados e intumescidos, desataram a rir com a situação. 
Demoraria algum tempo a regularem o ritmo cardíaco e a disfarçarem os vestígios da sua excitação. A hora de almoço aproximava-se demasiado rápida e ela já tinha almoço combinado. Conduziu o Outro a casa, o que lhe proporcionou um encontro fácil do caminho entre as pernas dela até à fenda molhada. Estava a ferver e assim ficou durante boa parte do trajecto.
À chegada a casa dele, ficaram ainda um pouco a conversar no carro, aquela conversa que pode durar horas sem ser desinteressante. Mas ela tinha de ir, Ele estava à espera. O Outro despediu-se com um beijo suave na boca que ela não retribuiu. Mais tarde explicou-lhe que não era a falta de vontade, mas a discrição assim o obrigava. O Outro compreendeu.
Não era algo que Ela fizesse regularmente. De facto, tratou-se de uma situação inédita, clandestina, há muito que não seduzia nem se deixava seduzir sozinha, sem o seu par.
À chegada a casa dela, Ele já estava à sua espera. E antes de comerem, comeram-se um ao outro. Ela estava incrivelmente excitada e ele percebeu logo que algo se tinha passado. Da cozinha ao quarto, foram duas explosões intensas, instantâneas dela, seguidas da dele.
Ela foi-lhe contando entusiasmadamente o que se passara, nada que ele não tivesse imaginado, e a descrição provocava-lhe um misto de ciúme e tesão…

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

pequenos prazeres II - a menina da fruta e o rapaz das encomendas


A menina da Fruta
“Limão com Açúcar” é a frutaria mesmo aqui ao lado, ao atravessar da rua. Já se chamou outras coisas, já teve outras gerências, nada parecia durar naquele espaço de renda elevada por muito tempo, até que eles chegaram e têm-se aguentado. É uma empresa familiar, pai reformado, mãe dona de casa e filha, típica loja de bairro num espaço recente, bem arejado e arranjado, com paredes pintadas de branco e amarelo e uns girassóis de papel a decorar.
Respira-se simpatia naquela frutaria, bem como os aromas da fruta da época, misturados, às cinco da tarde, com o cheirinho do pão com chouriço e dos croissants acabadinhos de sair do forno. Há também sopa à hora de almoço e biscoitos da confeitaria da Ajuda a toda a hora.
Mas o que me interessa mais naquela loja é a menina da fruta. Loirinha, pequena, bem feitinha, transpira simpatia por todos os poros. Está sempre a sorrir e atende-me sempre com uma calma segura sem se demorar demasiado, apenas o suficiente para poder apreciar a companhia.
Já me passou pela cabeça entregar-lhe um bilhetinho a perguntar se quer ir tomar café um dia destes, mas depois caio na realidade e livro-me a tempo do ridículo. Ela tem uma aliança no anelar esquerdo e os pais estão sempre por lá a guardá-la, por isso deixo-me ficar no meu cantinho para não arranjar sarilhos. Até porque segundo pude apurar, o pai era polícia.
Nunca trocamos muitas palavras, mas na verdade não me interessa falar muito com ela, basta-me apenas ver o seu sorriso para alegrar o meu dia.

O rapaz das encomendas
Dei com ele uma vez quando fui entregar correspondência à mais pacata estação dos CTT da cidade, logo de manhã cedo. A partir daí, esforcei-me para ir sempre à mesma hora. Nem sempre o encontro, mas quando acontece, sabe-me bem observá-lo discretamente enquanto distribui a correspondência pelos apartados e se prepara para mais um giro. Um dia bateu-me à porta e estendeu-me um embrulho de estranhas dimensões: “Bom dia, é só para entregar”. Agradeci com o maior sorriso que consegui e desejei-lhe também um bom dia. Deduzi que faz as entregas de objectos não normalizados e apeteceu-me mandar vir mais amostras de estranhos tamanhos só para ter o prazer de o ter à porta a dizer “Bom dia, é só para entregar”. Mas nunca o fiz, limito-me a passar pela estação sempre que tenho uma desculpa plausível para poder ficar a olhar para ele.
Não é que me sorria ou sequer repare em mim, é só mesmo porque gosto de olhar para ele enquanto aguardo na fila ou espero que o colega da caixa me sele as cartas todas. Não é que ele seja um ícone de beleza, é baixinho, tem uma barba rala engraçada, um olhar compenetrado, demasiado ocupado para reparar em mim, mas eu gosto mesmo de olhar para ele.
Um dia destes vi-o a passear pela cidade com uma criança pela mão e uma mulher ao lado. Uma família feliz em tempo de férias. Ainda bem.
Hoje fui lá entregar meia dúzia de cartas e uma encomenda, mas nem sinal dele ou da carrinha vermelha que conduz. Amanhã passo por lá outra vez.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

III anos a Provocar!!!

Pois é, 3 anos…

Aproveitamos este aniversário para agradecer mais uma vez a todos os leitores, comentadores e colaboradores que nos têm acompanhado neste espaço, ao longo de todo este tempo. Sabemos que é impossível agradar a todos, provocar e uma arte que vamos explorando e expressando e sobretudo divertindo-nos bastante durante o processo.

Ultimamente a inspiração e a disponibilidade não nos têm brindado com a sua presença, mas fazemo-nos valer das generosas e talentosas colaborações que vamos acolhendo com todo o prazer. Mas melhores fases virão, sei-o bem e o quarto ano de existência reservará ainda muitas surpresas. Continuem por cá e verão!

Venham mais três, todos de uma vez!

domingo, 5 de setembro de 2010

diálogos (im)prováveis X


Olá! Sou eu, conheci-te num bar, olhavas para o cu de uma gaja, lembras-te?

Conheceste-me num bar?.. Não estou a ver, não conheço pessoas em bares.

Grrr… Pareces daqueles filmes portugueses antigos. Do Vasco Santana e afins. Ó inclemência! Ó martírio! Estará acaso periclitante a vinda de vossa senhoria a esta humilde casa?.. O resto não me lembro. Cromo!

Chama-me nomes, chama-me tesão, sei muito bem quem és e onde nos conhecemos, estou-te cá com uma sanha que nem imaginas, galdéria...

Agora pareces um labrego. Gosto disso. Sanha. Já ontem disseste algo semelhante, de que também gostei. Muito. Tesão? Não sei o que seja. Não aprecio sexo. Nem mesmo de luz apagada. E sim, fodo-te todo. E chupo. E penetro. E entro. E enfio-me. E espeto-me. E abro-me. E rebento-te.

É?.. Não me parece, não vejo qualquer indício de verdade ou sequer de indulgência nas tuas palavras mas… Veremos. Veremos se eu estou com disposição...

Ora, lá estás tu a confundir licença poética com realidade… Estava apenas a pensar numa festa, de aniversário, fim de ano, com chapeuzinhos e serpentinas; sabes, é que estou com uma tesão imensa, deve ser do calor e o trabalho rebentou, chegou a minha vez, só me apetece sair daqui e foder-te, deixar-te seco, impotente.

Deveras?

Deveras: visualizo-te, de joelhos, à minha frente. A lamber-me a rata. Depois, quanto te arrasto pelo caralho e te amarro à cama, constato a tua anuência, incondicional, patente nessa carinha laroca e traquinas nesse pincel grosso empirista…

Ui, com essa do «empirista» é que me quilhaste, bem esgalhado, mal posso esperar… Compro eu o vinho?...


imagem: Virgo, (c) Allthesky.com
Texto por António Gil